O jasmin e o lixo [Cássio Zanatta]

Posted on 08/10/2019

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Chego à estação Fradique Coutinho do metrô. Do lado de fora da estação, vejo que fizeram um pequeno jardim, com uma fileira de pés de jasmim, que agora estão floridos. No espaço modesto, cercado pelo cimento, é um apertado e urgente momento de beleza.

Sim, este será o assunto da crônica. Quem o acha de uma pieguice sem fim ou simplesmente desinteressante, tem todo o direito de me largar aqui falando sozinho. Ando acostumado.

Apenas uma pausa para homenagear quem pensou nesse jardim, tomou as devidas providências, calculou a distância que deviam guardar as moitas e que no mês de outubro as pessoas levariam um susto bom, alegre, ainda que breve. Fico devendo a explicação quanto ao perfume – Ferreira Gullar já esgotou o assunto com um lindo e definitivo poema.

Engraçado é que jasmim é flor de verão, e estamos no início da primavera. Como os homens, ultimamente as plantas andam meio afoitas. Ou deve ser o trem do metrô que passa no subsolo, dita um ritmo urgente e as apressa, sei lá.

Eis que a poucos metros, para na calçada um caminhão de lixo para recolher os dejetos das latas deixadas na calçada. Fico exatamente entre os dois, no meio do caminho entre o caminhão e o jardim. A permanência do caminhão será mais breve que a da floração, mas causa um impressionante contraste: separados por mim, o perfume do jasmim e a pestilência do lixo travam feroz batalha.

Em nossos cinco sentidos, ao menos três tendem a dar a vitória ao caminhão: o olfato, pela incrível força do mal cheiro; a audição, já que o caminhão faz um barulho que humilha o silêncio das plantas; e a visão: os pequenos pés de jasmim não são páreo para a grandeza do caminhão. O tato e, principalmente, o paladar se recusam a participar do julgamento, está um belo dia e eles têm mais o que fazer. Quem perde tempo com esses assuntos são os cronistas, não os trens, pessoas normais e alguns sentidos.

Feito seu trabalho, o caminhão acelera e sai, fazendo ainda mais barulho, rosnando, mastigando de boca aberta a carga negada pelos homens, como um dinossauro dos tempos modernos, e acelera para colher outros lixos. Como a piada do bode na sala, sua partida e ausência revelam um silêncio, uma paz de que antes não nos dávamos conta.

Antes de seguir em frente, descer a escada, pegar o trem, cuidar da vida, detenho-me um último instante para admirar o jardim. É pequeno, mas destemido, venceu o enorme caminhão. Comemoramos juntos sua vitória na luta. Declaro em julgamento honesto, ainda que tendencioso, que o jasmim é mais forte que a carcaça.

E a vida segue. Ainda que 90% das pessoas que passaram pela cena não tenham se dado conta de nada.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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