4 de outubro [Madô Martins]

Posted on 04/10/2019

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O pai faria anos hoje, 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, aquele que amava os animais, e a igreja católica festeja benzendo cães, gatos, patos, tartarugas, peixes, qualquer pet que o dono traga de casa para ser abençoado. O nome paterno era Alvaro (sem acento), mas quando pequeno, por causa do santo, pais e irmãos o apelidavam de Alvaro Francisco, brincadeira que detestava.

Havia outro inconveniente acoplado ao natalício. As eleições aconteciam sempre naquela data e meu pai, pleito sim, outro também, atuava como mesário, o que o mantinha longe, apesar do feriado. Lembro de uma vez que a mãe levou bolo para a seção onde ele ficara, e comemoramos seu aniversário por lá mesmo. Mas, na maioria das vezes, esperávamos sua volta à noite, só depois que as urnas fossem entregues para apuração, para lhe dar abraços, beijos, presentes e cantar parabéns.

Influenciada pelo Henrique, nosso editor que garimpa documentos, bem que gostaria de reencontrar sua assinatura nas atas de tantas eleições, então, completamente manuais. Cumprida a tarefa, ele comentava a divulgação, pelos jornais, das frases de protesto deixadas nas cédulas por eleitores que não se contentavam apenas em anular o voto de forma convencional.

Ainda menina, eu ficava impressionada com aquelas histórias, e nunca esqueci quando, em 1959, o rinoceronte Cacareco foi o preferido para prefeito de São Paulo, com 100 mil votos de protesto. Santos também teve candidatos folclóricos e um dos mais famosos foi João Vicente da Cunha, conhecido como Zé Macaco (foto de Zezinho Herrera). Costumava ser confundido com radialista, entrevistando ao vivo personalidades que não suspeitavam do equipamento que usava: uma lata de azeite disfarçada de microfone.

Dentro da personagem, o repórter da fictícia Rádio Difusora do Saboó teve acesso a presidentes (Juscelino Kubitschek,  Jânio Quadros, Garrastazu Médici) e governadores (Franco Montoro, Paulo Maluf), quando passaram pela cidade. Também frequentava a Vila Belmiro, onde transmitiu jogos e abordou Pelé, Zagallo, Ademir da Guia, Garrincha e outros, entre as décadas de 50 a 70.

A facilidade em se comunicar fez com que o empregassem como propagandista de porta de loja, onde atraía os fregueses com artifícios circenses, como pernas de pau. Popular, foi convidado por portuários a se candidatar a vereador e acabou eleito, em 1988, com a segunda maior votação…

Não imagino como seu Alvaro analisaria a política dos tempos atuais, afinal, fatos e figuras bizarros não o espantariam. E é uma pena que as cédulas de votação já não sejam impressas…

Desde 1996, não desfruto de sua companhia, mas 4 de outubro é sempre dia de lhe dedicar o carinho estocado há 23 anos e reafirmar que meu voto de melhor pai sempre será dele.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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