Obras em progresso [Daniel Russell Ribas]

Posted on 30/09/2019

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Um martelete custava R$ 500, fui informado. Até mais cedo, sequer tinha ouvido falar nessa palavra. O lado positivo de uma obra em casa (no banheiro, no caso) é a possibilidade de aprender uma miríade de termos novos. Também há, se houver abertura espiritual suficiente, a aventura de exercer sua serenidade. Porque tudo que pode dar errado em uma obra, dá. Se a mão do destino (ou do operário, depende da boa vontade) puder atrasar o término da mesma, não se preocupe: faça a oração da serenidade tantas vezes que as pessoas acharão você um profeta, um louco ou alguém que tem gente quebrando sua cabeça, digo, chão em busca de uma infiltração.
Minha primeira vez lidando com a obra se encaixa na narrativa geral das primeiras vezes, exceto sua duração, que parece interminável. Enquanto isso, todo e qualquer compromisso fica à deriva. A obra é uma senhora exigente. “Conceda-me serenidade…”. Quando você escreve sua crônica num intervalo de almoço dos operários, não adianta achar que terá tempo de fazer as coisas como gostaria. Viva aos telefones espertos, só digo isso.
Os cães ladram, apesar das batidas terem cessado. As do meu estômago, pois não consegui almoçar até agora, repercutem. Tudo porque preciso esperar o martelete para que o encanador adiante o serviço. E o mundo que se exploda. Ao menos deste modo teria uma desculpa para não fazer obra.
Gosto de ser cronista, pois permite a experimentação. Fora a forma, o texto é livre. Assim, seguimos em uma construção sem base, cujo único intuito é tocar o leitor. Se o autor for bem-sucedido, quem se aventura por estas linhas não escorregará em elucubrações egoístas, mas em um terreno em cuja firmeza a reflexão alheia se espalha. Logo, meu desejo é que o encanador seja este autor caridoso, e o piso do box do banheiro não transforme seus ocupantes em personagens de comédia pastelão.
A vida, assim como a crônica, é uma obra em progresso, em que a única previsibilidade é o fim. Já obra em casa, meu amigo…
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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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