Portugal, meu amor [Marcelo Tacuchian]

Posted on 28/09/2019

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Chovia imenso. O avião descolou do aeroporto do Rio. Dez horas depois estaria a aterrar na luz única de Lisboa. Em Portugal, toda a gente sabe que adoro retornar a esta terra. No Brasil, todo mundo sabe disso também.

Apanho minha carrinha no parque do aeroporto e sigo viagem. Estou a conduzir, e a luz continua mágica. Dá até vontade de chorar, mas sou chamado de volta à Terra com o toque do telemóvel. Encosto na berma e com o veículo já no acostamento, atendo o celular. Uma ligação perdida do Brasil. Ou seria alguém perdido no Brasil? Mas são tantos e tantas. Como saber quem?

E, também algo perdido, continuo eu. Não sei por que minha memória volta ao remoto passado e me lembro e lembro-me quando, na opção de escolha de língua estrangeira para o então vestibular, marquei o francês enquanto poderia, igualmente e sem falsa modéstia, ter escolhido o inglês. Na época, estudava ambas as línguas e me considerava e considerava-me fluente em qualquer uma das duas.

Posteriormente, por motivos profissionais, o francês foi sendo esquecido e o inglês predominou. Hoje, já não uso o inglês com tanta frequência e é apenas o português que domino. Será que domino mesmo? Na verdade, acho que de trilíngue, passei a “nulolíngue”. Fico ligeiramente desconcertado com minha decadência linguística!

No meu corretor ortográfico, já não sei se uso português-pt ou português-br. Criei um português-marcelo? A língua que nos une e nos confunde. E os intermináveis debates e notas de rodapé afirmando que “esta publicação (não) segue o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”.

Com tantos pensamentos na cabeça, sinto-me e me sinto um pouco cansado. Já não sou mais um puto e reparo que é hora do meu check up anual. No moderno hospital, a enfermeira é acolhedora: “Fica cofrtvl que o seu colstrl vai dar ok.” Faz todo sentido, com todas as letras e sílabas, se estou con-for-tá-vel, é óbvio que meu co-les-te-rol vai mostrar ótimos índices.

Meu corpo sadio, as vogais ora sim ora não nos devidos lugares e as paisagens cada vez mais luminosas. Está sendo e a ser uma linda viagem.

Portugal, amo-te e te amo ao mesmo tempo.

 

Crônica ou crónica assinada por Marcelo Tacuchian

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Marcelo Tacuchian
 é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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