Minha camisa ridícula [Cássio Zanatta]

Posted on 24/09/2019

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Comprei uma camisa ridícula. Estava superbaratinha, parcelada em 10 vezes, comprei. Ela tem um tecido leve, bom de usar, e uma gola desconjuntada, ruim de usar. É amarela, há quem diga laranja, botões azuis, uns coqueiros de folhas verdes espalhados e muitos sóis vermelhos. Imagino que o sujeito tenha decidido pelo sol vermelho para que ele não desaparecesse no fundo amarelo.

E tem um bolso também, tão pequeno que um bilhete de metrô ficaria apertado ali. Mas o fabricante achou indispensável que tivesse um bolso. Sem utilidade mesmo: afinal, bilhetes, fichas telefônicas, moedas, estão fadados à extinção. O fabricante é um homem que enxerga o que poucos divisam. Um homem à frente do seu tempo, como se diz.

Comprar uma camisa ridícula traz vantagens. Uma: conforto aos companheiros de infortúnio. O sujeito está lá, no vagão do metrô, mão na cabeça, aflito com alguma providência, se sentindo um desgraçado ou infeliz, quando vê minha camisa ridícula e pensa: “Não, calma, tem gente em situação pior, eu ainda tenho bom gosto. Olha o coitado que, além de desgraçado, usa uma camisa ridícula dessa”.

Você vira referência na rua. Ajuda a orientar os transeuntes. “A farmácia? Ali, logo passando aquele cara de camisa ridícula.” “A floricultura? É ali, você não está vendo porque as cores daquela camisa ridícula estão confundindo sua atenção.”

Outra vantagem: ela passa a ser assunto. Quando você chega num lugar, ninguém vai falar da onda de assaltos ou em cobrar uma dívida, mas sim: “Rapaz… você não tem vergonha de usar essa camisa ridícula?” Mesmo quando vem em forma de elogio: “Sabe, eu admiro muito sua coragem, seu destemor em usar uma camisa tão ridícula como essa.”

Uma camisa ridícula não dá dó se a gente pinga molho, rasga, enrosca no arame farpado ou esquece na lavanderia. Podemos dizer ainda que, ao vesti-la, colaboramos para a educação do país – há pouco ouvi uma mãe dizer ao filho: “Viu, menino, tem que estudar, vencer na vida, senão acaba usando uma camisa ridícula assim.”

Aos justos, minha camisa causa embaraço. Aos descrentes, a pia certeza de que sou caso perdido. Aos insensatos, uma esperança. Aos vencedores, incômodo. Aos doidos mansos, sugere uma mansidão sensata. Às pombas, um alvo fácil. Aos que ainda creem no homem, desânimo total.

No caso de hoje você topar na rua com alguém vestindo uma camisa ridícula, há uma boa chance de que seja eu. Vou entender perfeitamente se você atravessar a rua, cair na gargalhada, chamar o guarda ou abrir minha testa com uma pedrada.

Mas o que eu queria dizer mesmo é que hoje traí a todos, abandonei o regime, soneguei impostos, chutei o cachorro, neguei três vezes e cometi alguns assassinatos. Mas só repararam mesmo foi na minha camisa ridícula, nos sóis vermelhos, nos coqueiros salpicados e nesse bolso que ainda não entendi para que serve, mas deve ter alguma coisa a ver com nossa salvação.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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