Alegre rebeldia [Madô Martins]

Posted on 20/09/2019

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Enquanto o calor não se firma, vamos usando a praia de outras formas. Aqui, os postos de salvamento que abrigam os guarda-vidas e seus apetrechos têm, cada um, função adicional diferente: o Posto 1 é sede de uma escolinha de surf; o 4 funciona como cinema de bolso; no 6 há uma biblioteca bastante requisitada, e assim por diante.

Num domingo ensolarado, o Posto 6 e seu entorno foram ocupados por escritores e leitores de toda ordem: era o Dia do Escritor Santista. Distribuídos em tendas, autores lançaram livros, grupos performáticos fizeram recitais de poesia e música, cineastas locais exibiram seus curtas, escritores e editores formaram mesa-redonda para comentar suas obras. E ainda aconteciam o projeto Leia Santos, com distribuição gratuita de obras literárias para quem quisesse, e o Varal de Poesia, aberto a todo poeta interessado em ali pendurar seus versos.

Em tempos que carimbam cultura e educação como itens secundários na formação dos cidadãos, aquele foi um ato de rebeldia, e com apoio oficial, já que a data entrou para o calendário da cidade, os postos e o projeto pertencem à Prefeitura, que ainda forneceu a infraestrutura. Uma alegre rebeldia, em que banhistas se aproximavam para saber o motivo da festa, velhos companheiros se reencontravam, fãs podiam conhecer pessoalmente seus ídolos e escritores tinham vez e voz, reforçando a importância da leitura.

Uma festa democrática, em que membros das academias santistas (Feminina e de Letras) conviveram com escritores anônimos, autores consagrados trocaram experiências com os amadores, todos remando contra a maré da indiferença, para não dizer ignorância.

Pessoalmente, recebi muito carinho. Um casal de jovens leitores trouxe de casa um de meus livros para que autografasse, a filha de um amigo de adolescência compareceu para me conhecer e deixar o abraço dos pais, voltei a encontrar companheiros de antigos grupos de poesia e fui embora com ânimo renovado quanto ao ofício cujo retorno é sempre tão incerto.

Escritores, eternos Quixotes, lutando contra todas as dificuldades, ocupando todos os espaços disponíveis, difundindo arte. Teimosos como a natureza.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas