Cirurgiona [Tiago Maria]

Posted on 19/09/2019

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Não sei se eu já falei aqui pra vocês da minha filha do meio. É que eu tenho uma filha do meio – que é a filha do meio que eu mais amo -, a Luiza. Ela já quis ser prefeita, cantora, professora, garçonete e doula. Já tentou me convencer a adotar uma lagartixa de rua e trouxe pra casa uma vez, em uma caixa, quatro filhotes de gambá. Hoje, está convicta que será médica “cirurgiona”. Ai de mim duvidar da Luiza.

Mas o que me comove é a aplicação com que ela se entrega. Agora que vai ser médica cirurgiona, por exemplo, ela mesma já iniciou um estágio preparatório. Está operando, gratuitamente, pelo SUS (Sistema Uhuul de Saúde), as borrachas das colegas. Tem feito um trabalho tão bom que vem gente de outras turmas consultar com ela. Os casos mais graves são imediatamente encaminhados para os procedimentos necessários.

Essa semana ela me contou sobre alguns pacientes. Uma borracha ferida gravemente por um grafite zero sete que a atravessou de fora a fora. Foi preciso utilizar uma pinça e um extrator de grampos para retirar o corpo estranho. A operação foi um sucesso. O polímero passa bem. E teve o caso, complicadíssimo, das borrachas xifópagas azul/vermelha. Foram separadas com primor numa intervenção que ocupou todo o horário do recreio.

Uma, com capa plástica, recusa-se a tirar a roupa para ser examinada. Outra, na ponta de um lápis, com um buraco enorme que precisou receber um enxerto de silicone e Super Bonder. Pretas, verdes, triangulares, cilíndricas, em formato de sorvetinho, de flamingo, de cocô. Não há discriminação nem privilégios. Todas são tratadas como iguais. A Dra. Luiza está com a agenda preenchida até o fim do ensino fundamental.

Fui chamado na escola pois a Luiza cortou a toalha branca da mesa do refeitório para fazer de jaleco. Ora, francamente, é obvio que foi para evitar uma infecção escolar nos pacientes. Reclamaram também que alguns colegas não estão levando as suas borrachas para a sala de aula por recomendações médicas. Mas ela dá atestado e tudo! Ontem estava muito ansiosa. “Pai, hoje vai ser a primeira vez que eu vou operar um Babaloo de morango com hemorragia interna”.  Fuerza, chica!

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas