Mememi [Daniel Russell Ribas]

Posted on 16/09/2019

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Não sou capaz de opinar se foi a preguiça ou o desinteresse ou, quem sabe, um tanto de cada. No últimos meses, porém, fui introduzido a última mania do vasto playground virtual (o que, pela minha velocidade em conhecer novidades, deve ter umas duas décadas de vida). Memes, aquelas imagens estáticas ou com uma animação ligeira, que, com efeito humorístico, evidenciam a urgência da moda dos últimos 15 minutos. Sempre passei os olhos, porém nunca refleti sobre o que representam para nós como projeto da espécie humana. Sejam políticos ou observacionais, passei a me interessar pela análise destas mensagens. Se McLuhan se entusiasmava por outdoors, agora ele teria orgasmos múltiplos.

O meme adquiriu a função e a influência que a charge teve durante o período pré-digital. Só que sem a sofisticação, o que não é intrinsicamente ruim. Em tempos do imediatismo, o meme, tal o velho que quer café, berra. Personalidades, animais e desenhos desfilam e interagem, criando conexões privadas que se tornam cativantes. Para mim, quanto mais críptico for o negócio, melhor. Lembro-me que levei dias para entender uma animação em que uma mulher aos prantos berrava com uma imagem de um gato indiferente em frente a um prato. Foi assim que descobri que há uma página que se dedica a catalogar e explicar o contexto por trás destas manifestações. Houve também as horas dedicadas a um diálogo em que Cebolinha descobre quem é a cantora Ludmila após essa lhe lançar uma bola, que cai longe do personagem da Turma da Mônica (Obs: para quem é ruim de entender piadinhas infames como eu, a resposta está na fala dele: “Luim-de-mila”).

Como Gene Wilder sorridente em “A fantástica fábrica de chocolate”, o que me fascina nesta jornada provavelmente fútil é nossa habilidade em se comunicar. Entendam, como um cronista, ter uma noção de como as pessoas recebem e emitem mensagens torna-se um baita auxílio. Antes, as pessoas falavam na rua. Hoje, elas ficam caladas, cabisbaixas, encarando celulares. Complica a espionagem de improvisação inerente ao ofício. Já o indivíduo aqui encontrou um objeto que permite tanto a reflexão quanto a postergação daquelas “tirifis di ritini”, como ir ao supermercado ou pagar boletos. O menino de “Três é demais” não se preocupa com isso. Ele está imortalizado enquanto as agentes usarem sua imagem para escrever os textos que lhe derem na telha. Eu só me mantenho uma prestação por vez (entendam como quiserem).

Os memes mais verdadeiros são aqueles que primam pelo absurdo da premissa. Por exporem a bizarrice na busca por significado nas matérias mais diversas, fica latente uma necessidade humana. Mais do que encontrar, a definição de respostas, mesmo que estas sejam sua ausência. A proposta de ridicularizar esta busca mostra o fascinante e o frágil da vida. Queremos deixar uma marca, sem que tenhamos necessidade real desta façanha. Viver é complicado, e estar aberto à falta de uma conclusão é uma maneira de lidar com isso. Ao contrário da natureza específica da charge, o meme se recicla através da história. A imagem fica, o contexto se altera. É a obra da reprodutibilidade técnica na era da arte. Simboliza as possibilidades abertas para que sejamos criadores em um ambiente estéril. Na dúvida, recordo-me do único meme em que esbarrei com mensagem definitiva: “Shrek is life”.

Fora isso, toco doces sonhos, recuso-me a prosseguir imiscuindo e colocando esse ferrinho de dentista em matéria julgada, sob o risco de soar parlapatão de tribuna. Cito um certo político: “Chega! Chega! Basta!”

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas