Efeito colateral do sonho [Alexandre Brandão]

Posted on 15/09/2019

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(Imagem: Átila Roque)
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Estava em Tiradentes durante a semana de gastronomia. Cheguei no sábado e, até o dia seguinte, quando meus anfitriões voltaram de uma pequena viagem, fiquei só e gastei o tempo andando e cumprindo com louvor uma tarefa típica dos vagabundos: medir as ruas.

No caminho para o centro histórico, na boca da rua, o supermercado vendia, num preço bem mais convidativo do que aquele praticado lá no bochicho, geladíssimas cervejas. Meu trajeto me impedia de ignorar a promoção. E foi, já no Largo das Forras, sentado ao pé de uma daquelas árvores tão históricas quanto a cidade e tomando uma das cervejas compradas a preço de ocasião, que ouvi uma criança chorar. Em seguida, um menino foi lá tentar acalmá-la. Uma graça, ainda existem gestos solidários.

Eu não estava no centro dos acontecimentos, tudo se passava ali nas minhas barbas, enquanto minha preocupação era com o que eu faria com a garrafa vazia, já que não via uma lixeira disponível. Sei que o choro sumiu, a ajuda do menino foi providencial. Um mundo sem choro é bom, é bem melhor do que aquele com choro, mas quem chora sabe bem como chorar alivia. Do ponto de vista de quem chora, o mundo com choro é muito melhor. Viver é um encanto, quando não é um fardo. Com choro ou sem choro, vai-se levando.

Depois de localizar uma lixeira e deixar uma das garrafinhas lá, vi que o pai levava para perto de outros familiares a criança que antes chorava. Ao chegar, contou o diálogo que teria tido com ela. Reproduzo suas palavras. Ele perguntou: “Acarmou?” Ela respondeu: “Acarmei”. Ele fez outra pergunta: “Por que que ocê tava nervosa?” E ela, definitiva: “Porque eu sonhei”.

No jeito de falar, na entonação, o diálogo carrega Minas inteira e, por isso, alimenta minhas saudades. No entanto não é só Minas que está ali, o Brasil inteiro está. O Brasil no qual, ao sonhar, perdemos a calma. Como vivemos um pesadelo, qualquer imagem idílica que se nos apresente não nos pacifica, nos desacarma. Ao sonhar, as crianças choram. Nós… não posso generalizar, então falo de mim. Eu, diante do breu destes tempos que o grande Verissimo chamou de guerra (Somos atacados pelo governo, O Globo, 5/9/2019), bebo.

Minto. Além de beber, vou para as ruas; participo dos movimentos críticos da verdadeira barbárie que se escolheu pelo voto; escrevo. Faço o que posso.

Não fico calmo, ou seja, sonho. Sinto-me bem assim.

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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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