Domesticidades [Madô Martins]

Posted on 06/09/2019

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nova decoração –
antecipa a primavera
casa renovada
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Sou meio contraditória, no que diz respeito à rotina. Estabeleço certos hábitos e me sinto confortável com eles. Mas gosto de novidades: sempre que posso, mudo o trajeto ao sair ou voltar para casa. Inverto as providências, na hora de preparar o café da manhã. Reformulo a sequência do banho, e assim por diante. Mas o que mais me dá prazer é transformar a casa, trocando cores, móveis… Em outras moradas, reformei o banheiro social por conta própria, instalei divisória de ferro para separar ambientes, ousei cores inusitadas nas paredes, e deu certo. Dizem sempre que moro em uma casa de bonecas. Mas, onde vivo agora é pequeno, por isso, meus voos são mais contidos.

Já trocara a mobília, tempos atrás, quando o azul Tiffany me atraiu a atenção. Passei anos mergulhada no mar do Tahiti, colecionando objetos que se integravam e deixavam a sala alegre, jovial, leve. Mas a vida anda, e comecei a desejar um ambiente mais adulto, sereno, aconchegante. Então migrei para outro azul, quase o azul real do lápis Johann Faber da infância, meu preferido para colorir.

Como num jogo de quebra-cabeça, aos poucos vou montando o novo cenário onde o olhar descansa. Encontrei quadros e almofadas idênticos que deram unidade e realce à parede e ao sofá. Resgatei vasos antigos, sentindo que era hora de expor sua beleza. Troquei os porta-retratos por outros de tons mais adequados. Com os novos estofados, a sala ficou maior e ganhei espaço para um abajur de pé, que tanto cobicei em residências alheias.

Mas as cortinas permanecerão as mesmas. Tentei um forro corta-luz, mas detestei a escuridão. O novo azul vai sofrer ação do tempo, mas quem ou o que não sofre? Por causa disso tudo, entre acertos e erros, ando ocupada (e feliz) demais em preparar o meu cantinho. A cada avaliação, vejo que está ficando bom. Quase não viajo, pouco saio por lazer, então, uma toca é necessária, com todos os predicados de qualquer abrigo ideal: privacidade, conforto, sossego. Beleza, também, por que não? Em tons de azul, como espero que sejam os anos que ainda vou viver.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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