Zé Ramalho, as borboletas e a bela prostituta [Elyandria Silva]

Posted on 03/09/2019

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Elas estavam num pequeno grupo, umas cinco possivelmente, foi o que consegui contar à distância porque se misturavam com uma velocidade impressionante, iam e voltavam, frenéticas, perto da árvore, com o sol a lhes emoldurar. Naquela hora provei da inveja e, numa pontada de dor, senti que poderia desfalecer em segundos. “As borboletas estão voando / A dança louca das borboletas / Quem vai voar não quer dançar / Só quer voar.” Zé Ramalho certamente entende de borboletas, você também, quem sabe sentiu a mesma coisa que senti. Quis voar a hora que desejasse, ter a liberdade que uma borboleta tem. Nunca fui borboleta, nunca tive a chance. Segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé a liberdade é arriscada, a liberdade mata. Ser livre assim como ser invejoso são ingredientes propícios para uma morte dolorosa e lenta. Já para Clarice Lispector a liberdade era pouco e o que ela buscava não tinha nome.

Horas depois, na estrada, dirigindo, sinto o gostinho doce da liberdade, enquanto o asfalto, à minha frente, se desenha com suas curvas perigosas e atraentes. Em algum quilômetro qualquer surge uma moça morena, cabelo comprido, preto e liso, com franja, vestido curto e justo cor rosa pink, botas pretas. Estava do lado direito da estrada. Corpo escultural e aquela bunda de capa de revista masculina. Pude ver bem seu rosto quando passei. Como era bonita! Poderia ser muito mais na vida, no entanto, ali estava ela, parada na beira da estrada, esperando algum cliente parar, arrancando olhares de quem passava. Ia causar algum acidente, pensei, vendo que o motorista da frente se preocupou mais em olhá-la do que com o volante. “Baby, dê-me seu dinheiro que eu quero viver / Dê-me seu relógio que eu quero saber / Quanto tempo falta para lhe esquecer / Quanto vale um homem para amar você / Minha profissão é suja e vulgar / Quero um pagamento para me deitar / Junto com você estrangular meu riso.” Zé Ramalho voltou, segui dirigindo, imaginando qual seria sua opinião sobre a bela prostituta da estrada com sua profissão triste. E desejei que a moça bonita do asfalto, um dia, também conseguisse virar uma borboleta e voasse para bem longe daquela vida infeliz para algum mundo feliz.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Posted in: Crônicas