Dias de chuva e seca [Daniel Russell Ribas]

Posted on 02/09/2019

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Quando ouvi pela primeira vez a frase “Sol e chuva, casamento de viúva.”, fiquei intrigado. Apesar de entender a parte inicial, a segunda me intrigava. Afinal, por que havia um casamento, e de uma viúva? Crianças são curiosas por natureza. Não fui exceção. Além do mais, era algo tão específico… Por que viúvas? Minha mãe explicou que significava quando algo inesperado ocorria. Nos anos 90, enquanto os amores foram sólidos, pareceu uma resposta razoável.

Algumas décadas transcorreram, e a impressão atual é de que as viúvas devem se casar bastante. Ser adulto é aceitar que o inesperado não é um fenômeno isolado, mas fato corriqueiro. Se uma criança enxerga com inocência, a maturidade confere um cinismo a estas ocorrências. Como estar surpreso por faltar dinheiro para pagar as contas, apesar de isto acontecer todo mês… Ao menos, finalmente entendi por que meu pai parecia tão brabo durante minha infância.

Por pertencer a um grupo de gerações que viu o fim de uma era comportamental e assiste ao nascimento de outra, me dou o luxo de comentar certas mudanças com status de expertise. “Sabe, na minha época, quando internet não existia, comunicação instantânea não-presencial era conceito de ficção científica, … (insira as referências “idosas” que quiser), as pessoas não eram tão voláteis.” Claro que havia ódio, segmentos rivais da sociedade, injustiça, (insira as referências sociais “atemporais” que preferir). Contudo, tudo isso acontece agora numa velocidade e ferocidade maiores. Talvez porque eu era jovem quando o novo milênio acenava no horizonte, mas a sensação gruda como milho de pipoca nos dentes. Em suma, está tudo bem em ficar tão brabo, mas… por que ficar tão brabo a ponto de partirmos para a agressão diária? (insira…)

Talvez a citada troca de mensagens virtuais tenha estimulado a uma tendência de usar opiniões como uma arma para ferir, não uma ferramenta para agregar… Quem sabe o excesso destes estímulos provoque um desvio de atenção em que o peso de nossas consequências surja mais intenso porque não nos recordamos do que fizemos inicialmente, pois há outro sinal piscando à nossa frente… Ou a inevitável degradação que nossa comida, ar e sentimentos, que causamos, nos empurre para o mesmo abismo em que se acomodaram os dinossauros… Enfim, é uma confusão. Sol e chuva, as viúvas se casam, cães e gatos convivem, histeria em massa! Lemos as notícias e acreditamos que o mundo está tão mal que até o meteoro desistiu de nós.

Insisto, contra as evidências, em ser um otimista. Desaprovo o que ocorre no planeta, no governo, com a gente. É triste, há dias em que eu mesmo luto para sair da cama. Ainda assim, eu não quero acreditar que algo bom vai ocorrer. Eu acredito. Se devemos aguardar pelo extraordinário, sejamos pacientes. Lutemos, sim, enquanto o inesperado adia a visita. Dias, meses, anos ruins compõem a jornada da vida. Há esperança, mesmo que seja tão visível quanto o ar. Mas nada que é bom aparece de graça. Por pior que se sinta, fique aqui e lute. Tire seus dias de lamber as feridas e, em seguida, retome o longo e complicado trabalho de ser uma pessoa melhor. Estes dias em que a escuridão cai dos céus aos borbotões são os que antecedem os em que esta mancha desidratará. E poderemos plantar uma terra melhor e colher os frutos. Acredite. Nada é para sempre, sequer a viuvez.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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