As cores do luto [Madô Martins]

Posted on 23/08/2019

0



Ando triste como viúva recente, mãe de filho falecido, amante abandonada. Visto luto por dentro e, por ser por dentro, tem vários tons. É cinza-chumbo diante das crianças mortas por tiros de helicópteros que sobrevoam favelas, amarelo como a floresta em chamas, negro como o ar e a água degradados, branco com as mentes privadas de inteligência que elegeram um lunático, roxo como a quaresma de nossa vergonha a cobrir altares pagãos.

Branco e preto pela imprensa-avestruz, vermelho como o sangue das vítimas dos franco-atiradores, caçadores e atiradores de elite, agora chamados snipers – em inglês, nossa futura língua-mãe. Verde como as notas de dólar que compram tudo e todos, marrom como a caca que sai da boca e do ânus do presidente, azul como deve ser a vida dos que seriam condenados por seus crimes mas permanecem impunes, incolor como as lágrimas dos doentes e parentes nas filas dos hospitais públicos, dos cientistas que em breve deixarão o país, dos aposentados à míngua.

E outra vez, branco, como a cocaína às toneladas que viaja clandestina em navios e aviões, negro como a maioria das vítimas de preconceito e violência, rosa como as bocas dos famintos, multicolorido como o grito dos lgbt, cinza-chumbo pelos artistas de todas as artes, ameaçados de extinção.

Ando triste por não vislumbrar saída neste labirinto de muitos minotauros, todos mortais. Eles evocam os reis franceses anteriores á guilhotina, os impérios nazista e fascista que teimam ressuscitar aqui e ali, mas, à sua revelia, também nos fazem lembrar das guerrilhas populares que não constam dos livros de História, dos heróis consagrados de boca em boca, geração após geração, a nos servir de exemplo e consolo. Para estes, meu luto é verde-esperança.

__________

Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas