Briga de rua [Alexandre Brandão]

Posted on 18/08/2019

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(Imagem: Átila Roque)

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Pela movimentação nas imediações do metrô, logo percebi que era um rolo, o desentendimento imediatamente anterior a uma briga de rua. Na minha cidade, 50 anos atrás, as brigas ficavam restritas a socos, mas hoje tudo está tão a tiro e pó que, cauteloso, procurei me afastar. De soco e até de cadeirada, sei me defender, seja com a ginga de corpo, seja com um revide, mas de bala…

A curiosidade, mórbida, é verdade, não me fez simplesmente deixar o local e ir para casa ou mesmo para um bar distante, onde nenhuma sobra da briga me alcançasse. Me posicionei num longe perto e fiquei de butuca. São as palavras que identificam os grupos confrontantes, também são elas que levam os agressores a agir — não por acaso, a pancadaria começa quando um xinga a mãe do outro. Sabendo disso, pus a orelha lá no meio do bafafá. “Pôr a orelha”, não sei se devo me explicar, é só uma força de expressão, longe perto eu estava e fiquei, e, de lá, mantive-me atento, atentíssimo.

Logo que agarrei as primeiras palavras da roda, vi que as condições da discussão não eram muito claras. Não parecia haver lados distintos, os grupos eram diferenciados pela intensidade com que cada um deles se identificava com o tema em debate. Seria como se torcedores do Flamengo brigassem para saber quem era mais flamenguista. Eu sou flamenguista roxo. Eu sou flamenguista com título de sócio-proprietário. Eu sou um geraldino órfão do velho Maraca. Mas não era sobre o Flamengo. Nem sobre Botafogo, Vasco, Fluminense ou América. Também não era sobre Portela e Mangueira, sobre Zona Norte e Zona Sul ou sobre Nordeste e o resto do país.

A briga era para saber quem estava mais duro. Eu não tenho dinheiro para entrar no metrô, descer na Central e tomar o trem até a Pavuna. Ora, mas você almoçou, não é? Parem com essas coisas de pobre, pior sou eu que devo o ordenado de hoje, o de amanhã e o de depois de amanhã. Veio aqui só pra gozar da nossa cara, seu classe média decadente. Muito bonito! E eu? Não posso parir o filho que carrego para ser mais um faminto na vida e não tenho um tostão para não levar a gravidez adiante. Nessa hora, pensei: vão aparecer os religiosos e dois grupos serão formados, os contra e os a favor do aborto, e, aí sim, tendo dois lados, a guerra começará. Mas não. Outra moça enfrentou a primeira. Você ainda faz por onde engravidar, eu e meu namorado tivemos de empenhar nossa libido na Caixa. Só querem dinheiro para a sem-vergonhice, de cultura ninguém quer saber. Mas eu não vou ao cinema, não vou a museu — nem digo os da Europa — já nem sei há quanto tempo.

Um mendigo correu para o centro do círculo recém-formado e com gestos de quem apresenta uma atração no picadeiro desejou a todos uma boa estadia no inferno. De tornozeleira eletrônica à vista, um arquimilionário jogou o mendigo para fora da roda e começou a dançar, e logo se viu que não era uma dança. O homem que foi obrigado a entregar ao erário três Mercedes, quatro barcos, dezoito aviões, trinta e duas concubinas e um elefante que defecava marfim foi tomado por uma entidade. O preto alto e sorridente fez questão de dizer que não era nenhuma divindade africana naquele corpo branco que, de um instante para outro, passou a emitir um bip-bip interminável. A menina de oito anos, que reclamava um churros prometido havia exatos quatorze meses e vinte e sete dias, apontou o dedo pro possuído e, com medo de que ele explodisse, se escondeu entre as pernas do pai. O pai, indiferente ao temor da filha, garantiu o doce para o próximo mês. Enquanto isso, o arquimilionário, entre aplausos e vaias, encenava, como um canastrão daqueles, uma queda ao chão.

Comecei a achar que me faziam de palhaço. Tudo indicava que o pau ia quebrar, mas nada, só bate-boca, só um querendo fazer de sua desgraça a mais terrível. Pensei na minha pindaíba, maior que umas, menor que outras. Lembrei-me da queda livre de muitos amigos. Seria bom me aproximar daquelas pessoas e explicar a elas que todos sofríamos por conta do governo, com exceção do arquimilionário, um fanfarrão que haveria de se ver com os deuses da África. Dei os primeiros passos e, ao tomar o lugar no centro, não sei o que me deu, sei que meti um soco no rosto que me olhava à espera da confissão de meu fracasso. Não era o do milionário.

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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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Posted in: Crônicas