Uma rosa nas mãos [Rubem Penz]

Posted on 16/08/2019

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Estarei com uma rosa nas mãos – foi o que disse no último digitar antes de imaginá-lo partir ao ponto de encontro. Isso ao mesmo tempo em que se divertia ao ver aquele outro rodar pelo parque feito uma barata tonta com um chapéu de feltro na cabeça.

Sim, passara os últimos meses alimentando diversos perfis em sites de relacionamento e, em todos, cultivou amores, promessas e encontros impossíveis. Afinal, mesmo comparecendo, dava pista insuficiente para ser sua identificação. Vários parceiros na mesma manhã, no mesmo parque, todos vestindo chapéus em busca de uma dama de sorriso fácil e cabelos ondulados com uma rosa nas mãos. Para lá e para cá, como nos antigos footings.

Homens altos, homens magros, homens de bigode. Homens de meia idade e meio solitários. Alguns com os quais até levaria o relacionamento adiante, para o patamar dos abraços e dos beijos. Das juras e dos bombons. Bons homens, quase todos. Ao menos de boa conversa. Só que havia um problema: mentia, mentia muito sobre si.

Quando já passava das onze e meia da manhã e começavam a chegar ao parque os jovens – os que dormem até mais tarde no domingo –, aquele de chapéu panamá reparou e, atraído pelo segurar da rosa, caminhou em sua direção. Tinha a expressão desanimada dos traídos pela aparência.

– Ela marcou com você, também?

– Como assim?

– A rosa nas mãos. Ela marcou com você também? Mas você não está de chapéu. Ela me disse: esteja de chapéu.

– Sinto muito, não sei do que se trata.

Enquanto via o chapéu panamá se afastando, sumindo atrás de uma numerosa família de japoneses e de um atirador de argolas, imaginava o que pensariam se soubessem ela ser ele. Também alto, magro, de bigode. Meia idade.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas