A pergunta [Marco Antonio Martire]

Posted on 14/08/2019

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A pergunta desde o berço: o que vou ser quando crescer? Momento único. Este em que a criança olha a dúvida sem brincadeiras e passa a avaliar o assunto. É a hora em que ela cogita deixar de ser criança, para sempre. O momento tem concorrentes de maior prestígio: o primeiro beijo, a primeira bicicleta, a primeira paixão, e lá vai lista. O dilema da profissão fica em posição justa entre os lugares onze e vinte. Quase ninguém repara.

Há dilemas que desse derivam: por exemplo, eu sempre soube que queria ser escritor. Não lembro de querer outra vida. A responsabilidade: o que fazer pelo projeto de escrever pela vida afora? Ainda não custa noites de sono e a vida é uma reta.

O melhor é escolher a faculdade que proverá os recursos. Pode ser Jornalismo, Letras, em geral humanas. Passou no Enem, surge a aventura de aproveitar a vida acadêmica, no que ela tem de obrigação e prazer. Mais tarde, desejará ter prestado mais atenção.

Daí os estágios, seus prazos.

Na cabeça sempre: escrever, viver de escrever.

Outro dia um meme revelava para mim as profissões de escritores. A maioria precisou de emprego e carteira assinada, expediente a cumprir, metas cobrando sim senhor mais de cinquenta vezes por dia. O glamour da profissão: noites em claro entre amigos, bebedeiras alegres e outras coisitas más, amores profundos, transas apaixonadas. Para quem é do contra: dias e noites sozinho, muita falta de grana e do que fazer, corpo castigado pelos vícios, uma sombra precoce.

Não é tarefa fácil.

No caminho, o amor, a juventude, no meio do caminho a si mesmo. Diante da pergunta, a resposta sempre ingênua. Desta vez, o quê?

 Na certa, reparam que escritor mente muito. Por uma boa causa. Está a pensar na trama. Depois do início, pra frente o meio e o fim. Uma nova história.

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Marco Antonio Martire é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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Posted in: Crônicas