Pijamas largos e moralismos [Raul Drewnick]

Posted on 11/08/2019

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Amor é bom e gostoso, com romance ou sem romance: honny soit qui mal y pense.

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Se Machado de Assis estivesse vivo, seria convocado por uma CPI para esclarecer se Capitu, afinal, traiu Escobar ou não.

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O cachimbo do Saci foi apreendido pelos acusadores de Monteiro Lobato, além de cinquenta gramas de pó de pirlimpimpim.

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Depois dos sessenta, começam a nos cair bem os pijamas largos e os moralismos.

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Quem escreve para si mesmo é porque não confia nos leitores ou os preza demais.

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A vizinha, contemplando o defunto: “Belo homem, o seu marido. Que pena.” “Belo? Você não viu nada. Espere, que eu vou buscar uma foto dele de bermuda, na praia.”

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Os leitores acostumaram-se mal com os concretistas e agora exigem de qualquer poeta, seja qual for sua escola, no mínimo um diploma de arquiteto.

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Todo poeta romântico deveria vir acompanhado por uma aparência razoável, além da caspa nos ombros e da usual coleção de suspiros.

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O que para outros se chama ofício é para os poetas só um perde-pão.

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Um gato melhora qualquer texto. Às vezes o salva.

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A luxúria chega com passos noturnos e sabe em qual dos quartos da casa nos encontrará, esperando por ela com os olhos fingidamente fechados e o coração alvoroçado como um coelho.

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Pensando bem, todo ato verdadeiramente amoroso deveria terminar em um duplo desmaio.

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Aviso na fachada do poema concretista: proibida a entrada de passarinhos.

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Um poema concretista não tem reedições nem reimpressões; tem só reformas.

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Se um dia me enfiarem numa camisa de força, que seja a do Corinthians.

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A tristeza, se der flores, deve cuidar para que sejam todas mirradas, para que não a acusem de presunçosa.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas