Hiroshima, meu amor [Madô Martins]

Posted on 09/08/2019

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Quando, adolescente, assisti ao filme de Alain Resnais, não imaginava que um dia conheceria Hiroshima pessoalmente. Quase não acreditei, ao fazer as contas agora, e constatar que lá estive há 45 anos! Cheguei com medo do que encontraria numa cidade bombardeada. Visitei o Museu da Paz, toquei o sino gigante e fui ao túmulo da menina milagrosa, sempre enfeitado com dobraduras em forma de tsurus. Foram ocasiões tristes e pesadas, a história sem retoques diante de mim.

Senti olhares hostis, inclusive dos guias turísticos, por não ter olhos puxados e vir da América. Mas, assim que me descobriam brasileira, a atitude mudava por completo. Tornavam-se amistosos e me enchiam de perguntas sobre o país, que sabiam terra de Pelé, do café e lar da maior comunidade japonesa fora do Japão.

A cidade também foi uma grata surpresa. Com exceção das ruínas no ponto mais atingido pela bomba atômica, onde o esqueleto de um grande prédio e casas completamente destruídas foram preservados como advertência para que a tragédia jamais se repita, ela me trouxe saudades de Santos, lugar onde nasci e vivo: Hiroshima também é cercada por montanhas cobertas de vegetação e bondes circulavam pelas avenidas.

Muito movimento nas ruas e as pessoas pareciam alegres, apesar do passado sombrio. No restaurante que comecei a frequentar, o proprietário fazia questão de pronunciar meu nome várias vezes, saboreando aquele inusitado som. Perto da hora de fechar, preparava café fresco, numa gentileza especial.

Foi em Hiroshima que assisti a O exorcista, que já assustava quando anunciado em traillers, na televisão (!). Uma experiência e tanto: sessão da meia-noite num cinema underground em que todos fumavam na plateia, deixando a sala enevoada, som original com legendas em japonês e a volta para o hotel por ruas desertas… Nunca mais esqueci o filme nem a cidade que sobreviveu ao próprio pesadelo. Assim que possível, pretendo rever a obra de Resnais, com roteiro de Marguerite Duras, para ver se reconheço algumas locações percorridas há tanto tempo…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas