Seu Arno, adolescências e juventudes [Tiago Maria]

Posted on 08/08/2019

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Ia eu à igreja… não, não… ao mercado, lá ia eu ao mercado…não, também não… eu ia ao banco… Ah, basta! Ao bar, eu estava indo para o bar, pronto, falei! Pois eu estava indo ao bar, já confessei, quando me ocorreu de passar no tio Arno para uma prosa daquelas filosóficopedagógicasambulantes. O seu Arno é um vendedor/filósofo/pedagogo ambulante, nem tão ambulante assim, visto que, há mais de trinta anos, veleja um carrinho de picolé, recheado de lariquices, e ancora seu guarda sol (faça chuva ou faça sol) a estibordo da pista de skate no coração do Parque Marinha do Brasil.

Para quem não o conhece, digo que vale a pena parar o que se estiver fazendo, exceto se for falar mal do presidente, para ter com ele um minuto – ou uma vida inteira – de assuntagem. Seu Arno, preto retinto, na porta dos oitenta, a carapinha grisalha, ex-mineiro das Minas do Butiá, estudado somente até o terceiro livro, como ele mesmo conta, porém, formado e pós-doutorado na UNIVIDU (Universidade da Vida Dura). O sorriso plácido, a fala remansada. Sabedoria bruta. Uma negra pérola de raro valor nesses nossos tempos.

Disse-me, com certa angústia, que vem notando uma diferença enorme nas juventudes. “Adolescências”, corrigi. “Não, meu filho, nas juventudes mesmo”, garantiu. E passou a explicar para este pobre moço as diferenças entre adolescências e juventudes.

O adolescer, segundo o seu Arno, não variou muito desde o seu tempo de escavador. “É uma questão mais biopsicológica, meu filho, entende? ”. Mudanças no corpo, a necessidade de se autoafirmar entre os seus, liberdades e responsabilidades à flor da pele. A negação de tudo o que vem dos pais, o egocentrismo, os amigos idênticos, a sexualidade; são conflitos que, grosso modo, acompanham e inquietam a todos os adolescentes. Sejam eles, brancos ou negros, pobres ou ricos, com maior ou menor nível de escolaridade.

“Já essas juventudes de hoje…”, prossegue o seu Arno, a voz perturbada, revira os olhos, duas pedras de carvão. “Aí, sim, meu filho, é sociocultural, entende?”. São muito diferentes as juventudes dependendo o lugar onde vivem. É mais extensa ou encurtada a juventude conforme  a classe social. “A minha mocidade me foi roubada aos pontapés”, diz ele, o punho cerrado. “Vejo as juventudes hoje, diante de um banquete de possibilidades, a contentar-se com as migalhas que caem no chão. Estão dormentes. Moram sozinhos e fogem de casa. Não encontram referências. Seus ídolos são uns canalhas. Mas aí já é rabujice desse nego véio”.

Eu ficaria meses conversando com o tio Arno. Sou curioso de saber o que ele pensa sobre qualquer assunto. Me comove a paixão com que defende as suas teses. Mas não costumo me alastrar muito para não atrapalhar as vendas. “Vou indo, tio Arno, tenho que passar no banco e depois no mercado, quero ver se dou uma chegadinha na igreja também…”. “Igreja, é, sei. Tu vais é pro bar, guri!”. Sabe muito esse tio Arno.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas