Corredor polonês [Rubem Penz]

Posted on 02/08/2019

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Digam o que disserem, entre queixas e denúncias, apelos e protestos, mas os ambientes escolares nos dias de hoje são muito mais acolhedores e muito menos opressivos do que outrora. Houvesse esta semana o que era quase corriqueiro em meus dias de apagadores voando na sala, repórteres fariam manchetes para o Fantástico de domingo. Porém, uma mudança negativa é triste novidade. Antes, o raciocínio.

Não quero soar bravateiro, induzir alguém a pensar que fui forjado em terra de valentes, tal qual um Cisco Kid tupiniquim. Não… Na comparação pura e simples, Velho Oeste viveu meu pai. Ele contava para nós os causos do Colégio Rosário de Porto Alegre pelos idos dos anos 1940 e 50, e ficávamos de cabelo em pé. Começa que não existia menino sem ao menos um canivete no bolso – de preferência aqueles de mola, que se armavam rápido feito unhas de gato irritado.

Para disputas no braço, as autoridades (no caso, os Irmãos Maristas) não só permitiam as brigas na saída, como compunham a plateia. Tal qual árbitros de UFC, interferiam apenas para evitar mortes. E, segundo o pai, ao chegar em casa todo arrebentado – indicativo de que apanhara – mentir que estava tudo bem era imprescindível. Caso contrário, apanharia outra vez. Ou seja: brigar, podia; perder a briga, não.

Dentre as atividades pouco amistosas de minha infância, o corredor polonês merece destaque. Para quem não conhece, é a passagem entre duas fileiras de colegas dispostos – e autorizados – a desferir chutes, tapas, socos e empurrões no pobre punido com a obrigação de cruzá-lo. E uma das mais seguras formas de receber tal punição seria, por exemplo, denunciar a violência da brincadeira. Por isso, participei, participávamos. Mesmo feridos por dentro com a injustiça de existirem alguns prediletos (no pior sentido). Bullying coletivo.

Porém, se a opressão declinou bastante nos últimos 80 anos, a sociedade trouxe uma novidade lamentável. Desde os tempos do meu velho pai, passando por meu pretérito (nada) perfeito, por mais violenta que fosse a rotina entre os estudantes, jamais ousaríamos ofender um professor. Que dirá agredi-lo. Reconhecíamos sua autoridade até mesmo quando nos prejudicavam – se denunciados aos pais, era do lado dos professores que estariam. Por isso, minha única bravata contra uma professora (entregar uma prova em branco) custou uma dependência para o ano seguinte. Pai e mãe só souberam disso quando eu já era adulto.

A moral e a autoridade do adulto em geral, do professor em particular, devem voltar à moda. Espero não vê-los cruzando corredores poloneses para entrar ou sair da sala de aula ou passar no pátio. Nem pais e mestres engalfinhados na saída, com alunos fazendo o círculo e filmando para compartilhar na internet. Isso não pode prosperar: está cada vez mais barato importar bugigangas da China, inclusive canivetes. Ou restauramos o respeito, ou teremos mortes.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas