Mirinha Vidente [Cyro de Mattos]

Posted on 01/08/2019

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Quando se estava em dúvida sobre algo que podia acontecer, de bom ou ruim, recorriam aos seus dons. Prenunciava o ano de boa safra, fartura para o pobre, benesse para o rico, saudável para o mediano. Evidenciava nas cartas ou no copo de água a desgraça próxima, surto de peste, incêndio com mortes, enchente pavorosa.

Era um rio pequeno, monótono, seguindo torto seu rumo, enganoso. Virava num bicho medonho, levando casas ribeirinhas, invadindo o comércio, empanturrado de fúria, água volumosa descendo das cabeceiras, do céu cor de chumbo.

Dessa vez só voltava ao curso normal, depois que engolisse duas almas gêmeas, dois irmãos ou irmãs. Segundo Mirinha Vidente, ficassem todos prevenidos, seria a calamidade maior naquele ano, do transcurso normal desceria com alarde, assombroso na força das águas.

Duas irmãs chamavam a atenção dos moradores da pequena cidade. Eram gêmeas. Marina e Mariana. O rosto de uma era o rosto da outra. O gosto de uma era o gosto da outra. Só andavam juntas. Vestiam-se com o vestido da mesma cor, o mesmo tecido, o mesmo corte. Ninguém sabia distinguir uma da outra. O penteado que uma usava, a outra também usava.

Até os risos eram muito parecidos, confundiam nos gestos mínimos a quem visse.

Tinham o mesmo tamanho, a mesma cor rosada no rosto, o mesmo olhar nos olhos pequenos e azuis, brilhantes. Quem era Marina? Quem era Mariana? Difícil saber. No educandário sempre tiraram as mesmas notas. Diplomaram-se em professora para orgulho dos pais.

De súbito chovera muito nas cabeceiras do rio. Do céu caía tanta água parecendo que o mundo ia se acabar para aqueles que ali vivessem. Gente chorando com as casas ribeirinhas sendo levadas nos redemoinhos das águas. O comércio alagado, as mercadorias nas lojas ensopadas de água com a enxurrada. Carro boiando na correnteza, bicho morto, pau grande.

As águas comeram parte do barranco no quintal da casa onde as irmãs gêmeas moravam. As águas lambiam o barranco, as gêmeas estavam olhando a fúria destamanho da correnteza, que levava tudo que pela frente encontrava.

Primeiro o barranco rompeu, despencando com Mariana. A irmã Marina tentou salvá-la. Deu-lhe a mão, ao invés de puxar a irmã foi puxada. Foram encontradas dias depois, abraçadas, no Poço da Caixa D’Água. A cidade chorou muito no enterro das irmãs gêmeas como não acontecera antes. Cobriu-se de um manto escuro, que até hoje encobre a cidade quando alguém relembra esse fato como um episódio doloroso na  pequena cidade, de poucas ruas calçadas..

Depois que levou as duas irmãs gêmeas, o riozinho voltou ao seu curso besta, inofensivo, conforme Mirinha Vidente havia anunciado.

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Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas