Do que se escreve uma crônica [Marco Antonio Martire]

Posted on 31/07/2019

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Cronista em busca de tempo pra escrever é engraçado. Das 24 horas diárias da semana, todos usam despertos cerca de dezesseis. Desconte o tempo que passamos no transporte, o tempo cumprindo nossas obrigações, aquele do chuveiro, das refeições, de namorar, de fazer amigos. Sobram cem, cento e vinte minutos, que o cronista quase em vão reserva para si.

Portanto, escrever onde e quando. Se pela manhã ou à tarde, à noite ou na madrugada afora. Crônica nas pausas do amor. Ou durante uma briga em silêncio. No meio da mudança. Ou enquanto procura emprego.

Vem o sábado. Chega de horas marcadas. O sábado com agenda de praia, caminhada, cinema e outras maratonas. O cronista estuda a rotina, como quem não está com nada (é segredo), retorna da rua com as primeiras linhas. Depois que essas linhas vão para a página, não há quem segure um cronista. Alienígenas teriam que esperar a manhã seguinte. Gaivotas no céu também. Depois de umas linhas ele não se contém. É uma crônica. São trezentas palavras, deixa que escapem suas ideias. Escapam por quantidade (do poeta por qualidade).

Se ao sábado faltaram horas, venha domingo. Desmarcaram o almoço, mas ele descobre esse prazer: guardar nele uma crônica, esta por exemplo. Um domingo bonito de se doar mil vezes, capricho de raios solares (longos cabelos).

Passou o domingo? A segunda-feira requer o texto, que mole é esse, lembra um vadio. Mas é crônica. Ainda tem a terça — o perigo: acrescente duas, três, quatro palavras, cuidado desintegra o texto. Então divulgação. Cronista também faz propaganda, encontre um na rua (se ainda não abriu o sinal de atravessar) e verá que ele escreveu a crônica da semana. Terá um sorriso de quem respira, espalha nas esquinas — nas redes sociais: leia, curte lá, deixa comentário que ele responde. A gente se vê. Abração.

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Marco Antonio Martire é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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