Ladrão de felicidades [Elyandria Silva]

Posted on 23/07/2019

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Escrevia, apagava, pensava, centenas de pensamentos brigando para estarem em primeiro lugar, se atropelavam para chamarem a atenção. Todos queriam o mesmo privilégio: reinar absoluto no turbilhão de uma mente agitada, sem ter de disputar espaço com tantos outros. Pensamento também quer ser mimado, quer ser filho único, mas às vezes morre ali mesmo e não é lembrado nunca mais. E foi com a morte simultânea de vários deles que fui arrancada da concentração pela movimentação intensa lá fora.

Uma cantoria de vários pássaros, um concerto com fundo tenso, notas musicais para um filme de terror. No céu o pequeno grupo de voadores parecia conferenciar-se entre si. De repente, do alto de minha insignificância humana, quis ser um pássaro e falar aquela língua. Quem dera poder voar, quem dera viver a vida que é de verdade, a animal, que é natural, sem maquiagens hipócritas e mal feitas. Por favor, leitor, não me entenda mal, ser gente é bom, assim também como é bom saber que ainda existe gente boa. É que, cá para nós, e você deve me entender muito bem, tem bicho que é mais gente que gente que tenta ser bicho.

Voltemos aos pássaros. Um gato, pensei, logo tudo voltará ao normal quando ele for embora. Eles se avisam entre si quando alguma ameaça está rondando, são solidários, companheiros. De frente para o jardim à minha frente, vasculho metodicamente cada canto. Concluo que não havia nada quando tudo acontece numa fração de segundos. Um gavião voa em alta velocidade em minha direção. Fotografo mentalmente em câmara lenta, o vento que anuncia uma possível chuva cessa para que a cena não tenha coadjuvantes. A enorme ave faz quase um voo rasante, dobra a curva invisível do espaço. Seu peito branco, as grandes asas cinzas, o bico de cor laranja. Parecia bravo, revoltado, porém, vitorioso, a face da maldade bem sucedida, a vitória da natureza perversa em sua plenitude. Trazia pendurado no bico um filhote de pássaro, inerte, indefeso, passivo em seu destino rumo à morte lenta. Atrás do gavião, uma pequena fileira de pássaros em suas humildes perseguições. Seguiram desesperados, quem sabe a pobre mãe estivesse junto, a dor da perda acompanhando, a esperança ficando para trás. Poucos segundos e mais dois pequeninos passarinhos passaram para tentar se unir à perseguição dos bons e meu coração doeu mais ainda por saber que não conseguiriam alcançar o gavião. Era uma batalha perdida!

Quis correr para salvar o filhote. Quis devolvê-lo à mãe e lhe dizer que tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto do gavião, aquele ladrão de felicidades. Senti a dor daquela mãe, ter seu filhote roubado numa pacata tarde de sábado. O silêncio voltou e a vida seguiu. Virei as costas e entrei, tomada de tristeza e de  revolta pela tragédia que se abateu na vida da mãe passarinha. Coberta pela impotência tomei o caminho dos pensamentos de volta e, que surpresa, alguns tinham apenas adormecido.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Posted in: Crônicas