Qualquer dia desses [Rubem Penz]

Posted on 19/07/2019

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Todo dia era dia de índio
Jorge Benjor

No dia 20 de julho comemoramos o Dia do Amigo. Coisa mais linda, né, ainda que considere, parafraseando o Jorge Benjor, todo dia ser dia de amigos.

Sem falsa modéstia, tenho muito orgulho de ostentar um patrimônio fraternal robusto, muito variado, novo e bastante antigo de parceiros de jornada. São amigos-do-peito, amigos-em-torno-de-interesses-em-comum, amigos-mais-para-conhecidos-mas-muito-legais e vale incluir – por que não? – amigos-exclusivamente-nas-redes-sociais. Todos eles (diria você, amigo a ler) fazem minha vida melhor. Mais rica, divertida, amorosa. Plena. E trato de retribuir com o bom carinho, pois a palavra mágica para estas relações é reciprocidade.

Agora, e amigos tortos, eles existem?

Por exemplo, o amigo da onça. Todos temos alguns, lamentavelmente. Eles nos deixam sem saber o que são de verdade: falsos amigos ou amigos falsos. Para quem não conhece, esse personagem foi imortalizado nos cartuns de Péricles de Andrade Maranhão na revista O Cruzeiro (vale pesquisar). Estão sempre por perto porque, assim próximos, conseguem nos ferrar com mais facilidade. Dão bolas nas costas, puxam o tapete, alimentam Fake News, nos expõem em saias justas… Tanto fogo amigo que é fogo, amigo. Nos manuais de autoajuda são descritos de forma mais rebuscada: relações tóxicas ou vampiros sugadores de energia. Deus nos livre!

Outro tipo para manter distância é o amigo do alheio. Esses não gostam nem um pouco da gente: gostam do que temos ou somos. E querem para si. A qualquer momento, mais facilmente no momento em que baixamos a guarda, invadem e levam o que é nosso. Eles podem ser o clássico ladrão que arromba a porta de casa ou do carro, pode ser o punguista a aliviar o peso de nossos bolsos e bolsas, o assaltante atrás de celulares ou até o malandro perseguidor de distrações. Entretanto, o pior deles é aquele escroto que dá tapinhas nas costas pela frente e rouba uma oportunidade logo a frente pelas costas – um tipo de larápio especialista em passar os outros na conversa. Vade retro, tipinhos dissimulados e pérfidos.

Por fim, vale lamentar a existência do ex-amigo. Como todos na categoria de ex, um dia foi, não é mais. E por já ter sido, sabe tudo sobre nossas fragilidades, carências, destemperos. Conhece quando não estamos numa boa, mas nem liga. Pior: pode até gostar um pouquinho. Ah, como eu desejaria ver esta espécie extinta… Tenho até meios para alcançar esta graça: neste Dia do Amigo, tiremos todos uns minutos para lembrar com nostalgia os grandes momentos com ex-amigos. Os bons tempos. Essa energia toda há de alimentar o inconsciente coletivo e, ao menos esperarmos, o acaso fará com que estejamos diante deles qualquer dia desses. É quando pode vir um abraço e a certeza de o bem-querer pode superar tudo.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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