Maria Baderna [Tiago Maria]

Posted on 11/07/2019

5



Para quem acha que a baderna sempre esteve presente nessas terras onde canta o sabiá, segue aqui um breve esclarecimento histórico. Pássaros gorjeavam em plena ordem e dentro dos bons costumes em nossas palmeiras, ainda sob as barbas de D. Pedro II, quando a Baderna instalou-se por aqui. Foi recebida com pompa e entusiasmo pela sociedade local. Refiro-me a Marietta Giannini Baderna, italiana, primeira bailarina do Scala, de Milão, na época, um dos teatros líricos mais importantes do mundo.

Acompanhada por seu pai, Antônio Baderna, a bailarina desembarcou no Rio de Janeiro depois de sofrer perseguição política na Itália. Instalou-se, sem saber, no berço esplendido de uma sociedade escravocrata e preconceituosa. No início, o sobrenome chegou a ser referência de beleza e sofisticação artística. Acontece que a bendita moça, e isso era coisa exposta, tinha lá o seu estorvo. E a dançar para um público tão nobre, tão cheirando a brilho e a novo – preferiu dançar para o povo.

Maria Baderna, como ficou conhecida, interessava-se pelos ritmos brasileiros. Dizem os faladores que gostava de sexo e de bebidas fortes, ou seja, era das nossas. Saiu às ruas encantada com as mulatas nas danças de roda, seu requebrar, apaixonou-se pelo lundum e a cachuca. Chegou a ser considerada musa da umbigada. Estes movimentos eram ditos muito ousados para serem apresentados no Teatro Dom Pedro de Alcântara, que começava a ser frequentado por seus admiradores – os baderneiros. Fato que incomodava os “cidadãos de bem”.

Sua dança foi considerada fator de corrupção da juventude. Seus papeis foram cada vez menores e deslocados, com o tempo, reduzidos e postos em segundo plano. Os baderneiros, inconformados, protestavam batendo os pés no chão interrompendo o espetáculo. Saíam do teatro gritando o nome da musa: Baderna! Baderna! Baderna! Assim, ovacionada pelo povo, seu nome passou a ser sinônimo de bagunça, confusão e desordem pública.

Com uma umbigada dessas, na cara da sociedade, seu estilo transgressor e libertário, militante, mulher, branca, dançando ritmos africanos nos espaços reservados às elites, rivalizando com as divas do canto lírico no Rio de Janeiro Imperial, foi perseguida, difamada e, por fim, sucumbiu frente ao conservadorismo. É uma pena que a bailarina não tenha conhecido a nossa Brasília atual, onde a conotação que o seu sobrenome adquiriu faz todo o sentido. Viva a Baderna! A Balbúrdia! E o Telegram! (Opa! Tem que rever isso daí, taokey?)

_________

E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas