Revendo “The Doors” [Daniel Russell Ribas]

Posted on 08/07/2019

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O tempo é o melhor amigo. Recusa complacência, pois a sinceridade é o alvo. Nisto, a arte surge como um filhote faminto, que cresce em musa ou medusa. Ao rever “The Doors”, senti-me tocado de uma forma incômoda e fascinante.

O crítico de cinema Roger Ebert definiu o filme “The Doors” como uma comemoração infernal. Ao mesmo tempo em que reconheceu as qualidades técnicas da obra, incomodou-se bastante pela autodestruição retratada. Seu parceiro no programa televisivo “Siskel & Ebert”, Gene Siskel, também foi afetado pela atmosfera do filme, mas o defendeu em sua composição de uma época de descobertas, excessos e destruição simbolizada pela figura de Jim Morrisson. Mais de duas décadas após esta discussão e o lançamento, pode-se afirmar que o longa-metragem dirigido por Oliver Stone mantém intacto o clima carregado aliado a imagens fortes e hipnotizantes.

Revi um filme em uma sessão no Cine Joia, localizado em Copacabana. Assisti-lo em uma tela grande potencializa o impacto da obra. Apesar de possuir uma escala menor do que as produções épicas que Oliver Stone realizava no período, “The Doors” não é menos ambicioso. Alterna técnicas diversas de iluminação, enquadramento, movimentação e edição para criar um ambiente caótico de sonho/ pesadelo. O que incomodou tanto a  Ebert e me fascinou é a mão pesada que segura e não larga o espectador. “The Doors” almeja uma camada sensorial e chega perto de seu objetivo. São imagens fortes e belas, carregadas de significado. O tema da morte é presente em quase todas.

O Morrisson cinematográfico, mais do que um artista autodestrutivo, é um profeta apocalíptico, que promete a revelação em troca de sua alma. Embora seja o subtexto do filme e do personagem, há sequências que explicitam o tópico. A música pode ser um portal para o outro mundo, como a morte física. Se há algo que irrita as pessoas é ser lembrado de sua mortalidade.

Torna-se óbvio que não se trata de uma obra realista em qualquer momento, mesmo sendo baseada em história. Os fatos servem à arte, e são reconstruídos para se adequar à interpretação de Stone do que a música do grupo e a performance do vocalista significavam. Enquanto a construção cênica é de uma psicodelia hiper-realista, Stone optou por um roteiro e direção de atores realista.

A escalação é feita com atores competentes e que se assemelham às personalidades reais e a trama segue uma ordem cronológica. Se por um lado é uma opção que evita que o filme alcance o estado sensorial que ambiciona, também permite uma aceitação de um público mais tradicional e abre caminho para destacar o protagonista em meio à “normalidade” da trama e das atuações.

O desempenho de Val Kilmer, chamado de “espírita” por alguns, é a ponte entre a encenação surreal e o palco da realidade. Ao optar por uma incorporação no lugar de uma interpretação, Kilmer atinge o raro equilíbrio entre atuar e “ser” o personagem. É uma decisão que poderia dar errado, e desviar para uma caricatura ou um esforço fútil. O ator consegue atingir uma fusão entre si e o personagem, fato que se torna mais admirável por se tratar de alguém que existiu e que foi registrado em gravações. Assim, é possível aceitar “The Doors” como um estudo sobre o mundo reconstruído através da arte, alterando padrões sociais e comportamentais através de uma ação agressiva e sugestiva do artista.

Morrisson foi comparado a seu ídolo, Arthur Rimbaud, que também viveu uma juventude intensa e forte em criação. “The Doors” não é uma temporada no inferno, mas uma festa, com começo e hora para terminar. É um filme que resistiu bem como um retrato pessoal de um momento histórico, um musical ousado e uma crônica filosófica sobre um homem que possuía grandeza, mas encontra a ruína pela dor que o consome por dentro. Ruína esta que lhe concede imortalidade. A arte é uma musa faminta quando renasce em novas sensações.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas