A maçã matinal e o fim do mundo [Alexandre Brandão]

Posted on 07/07/2019

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(Imagem: Átila Roque)
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Acordar, passar pelo banheiro para se aliviar das necessidades mais prementes da manhã, coar o café, sentar-se à mesa e então ingerir os venenos produzidos a um custo altíssimo de pesquisa, acrescido de outros que garantem a comercialização e o acesso do produto ao consumidor, no caso, o produtor rural.

Olhar a maçã, conferir se a lavou direitinho e decidir por comê-la sem a casca, os riscos devem ser menores. Mordê-la e, ao contrário do escritor francês que tinha delírios nostálgicos ao comer uns biscoitinhos, não lhe chegar à boca ou ao nariz qualquer lembrança da infância. A maçã mata, não com brevidade, aos poucos. E não sozinha, mas com a ajuda de outras frutas, dos legumes, das verduras, dos cereais e das carnes. Morre-se por comer. Como Deus é irônico!

A maçã é mais letal na outra ponta, não naquela em que está o dono do negócio — por favor, isso nunca —, mas, sim, do lado do sujeito que pulveriza as árvores com o agrotóxico que não deixa nenhum bichinho de maçã, o Cydia pomonella, se engraçar com a fruta responsável por nossa expulsão do paraíso — que, agora, nos dará ao céu, se ao céu formos dados. Aquele homem é, de fato, um esteta e garante a maçã grande, esfera quase perfeita, encontrada nos mercados. Não é raro que os trabalhadores rurais, atingidos diretamente pelo veneno, tenham vida curta, apesar das roupas protetoras; são, portanto, estetas e vítimas.

Come-se para morrer, para morrer lentamente. Ora, ora, não é a vida uma morte lenta? Verdade, mas, não fossem os venenos, morrer-se-ia de coisa menos corrosiva e, mais importante, sem que o mundo morresse junto, ferido pelo desastre ambiental que produzimos.

Como viver sem o aumento de produtividade, já que a terra é pouca para os seus sete bilhões de habitantes? Não está aqui o romântico das hortaliças, longe disso, a revolução verde, que chegou tarde ao Brasil, tem méritos. Mas não raro erra a mão, e é aí que nosso país tem se excedido, aprovando qualquer veneno, mesmo alguns já descartados em outros países.

Morde-se a maçã meio aguadinha. Lê-se o jornal e depara-se com o projeto político de ignorância aviltante, no qual o agrotóxico em uso desmedido é uma parte menor diante do ódio à Floresta Amazônica (responsável, entre outras coisas, pela chuva nas demais regiões do país), do ódio à ideia de um Brasil como peça fundamental no controle ambiental, do ódio à ciência. Odeia-se muito e ama-se um quase nada.

Come-se a maçã e imagina-se uma cena: um assistente aterrorizado (e com razão) entra na sala de um desses magnânimos da ignorância e diz: “Estamos com dificuldade de exportar nossos produtos depois que abrimos a porteira para não sei quantos novos agrotóxicos”. O chefe que crê no mundo plano lhe responde: “Ora, nem me venha com primavera”.

As flores murcham.

E nós também.

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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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Posted in: Crônicas