Vizinhança [Madô Martins]

Posted on 28/06/2019

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Já faz 11 anos que moro neste prédio, mas conheço a maioria dos vizinhos apenas de vista. De alguns sei os hábitos, pela repetição: a hora que costumam sair ou voltar para casa, quando levam as crianças para a escola, os cães para passear, colocam o lixo lá fora, passam aspirador nos cômodos. Nosso contato é mais na base dos cumprimentos, quando eventualmente nos cruzamos. Mesmo assim, formamos uma família ou, pelo menos, um time, unidos sob o mesmo teto. Praticamos cortesias, abrindo o portão para quem chega com as mãos ocupadas, avisando que o carteiro deixou nova correspondência na caixa “outros”, porque o envelope não cabia nas menores, uma para cada apartamento. Na escadaria, comentamos sobre o tempo, uma avó pergunta a outra sobre os netos, vários reclamam quando um objeto é esquecido no hall, até ser retirado.

Nos edifícios em volta, noto que muitos vizinhos possuem gatos, porque estão sempre tomando sol no peitoril das janelas, pela manhã. Que alguém teve nenê recentemente, porque um choro de recém-nascido atravessa paredes e muros. Que a cultivadora de orquídeas está outra vez com a sacada florida, como todos os anos. Que o faxineiro alheio passa o dia com a wapp ligada, lavando ruidosamente as áreas externas.

Durante a semana, a rua ainda tem outros sons familiares: os entregadores de gás, cada qual com um refrão peculiar; os vendedores de ovos, de produtos de limpeza, de lençóis a preço de fábrica, os motoboys… tudo ouvido de dentro do apartamento.

Aos domingos, os decibéis aumentam consideravelmente: soam os feirantes, que interrompem nosso sono ao montar as barracas cedinho e, perto da hora de ir embora, disputam os últimos fregueses num campeonato de berros cada vez mais exagerados. A estes, juntam-se sons agradáveis, como o do saxofonista que toca jazz em plena feira, e detestáveis, como a da pregadora que, coberta com um manto e de voz estridente, lê para todos e ninguém trechos da bíblia. Passada a agitação, é a vez de os garis recolherem o lixo, dividindo o território com os catadores da xepa e os urubus.

Por fim, chega o caminhão-pipa, com a estrondosa mangueira, deixando tudo limpo e silencioso outra vez, lá pelas três da tarde. É quando os vizinhos que têm carro retornam às garagens (até então, interditadas pelas barracas), tevês são ligadas, à espera de algum jogo de futebol, alguém assa um bolo cheiroso, a padaria da esquina começa a receber torcedores, que de vez em quando festejarão os gols com cerveja e palavrões.

À noite, todos se recolhem, impregnando o ar com a melancólica expectativa da segunda-feira. Quando então a padaria exalará cheiro de pão fresco, os vizinhos sairão apressados para o trabalho, as crianças seguirão para a escola, os gatos tomarão seu banho de sol, os cães deixarão suas marcas nas calçadas, a dona das orquídeas cuidará delas, e um bom dia aguardará na ponta de cada língua, para quando um conhecido aparecer.

Com a chegada das férias, um ou outro vizinho será visto a colocar malas no carro, preparando-se para viajar. Vai contar para onde e, com a camaradagem costumeira, perguntará: “Quer ir conosco?”

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

 

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Posted in: Crônicas