Chatonildo [Tiago Maria]

Posted on 27/06/2019

3



“Nunca poderão me acusar como falador da vida alheia,

porque não sei fazer outra coisa que não falar de mim.”

Antônio Maria

Ele aparece justamente quando mais desejamos paz. Nunca é convidado, chega de intrometido. Um pulôver sobre os ombros combinando com as meias. Fala alto ao telefone, talvez nem exista um ouvinte na outra ponta da linha. Pede desculpas antes e depois de qualquer frase e se senta no lugar vago de quem foi ao banheiro. Tem sempre um ditado popular, quase sempre errado ou incompleto, engatilhado: “Desculpa, mas, foi a ar…”. Seu nome é Muito. Sobrenome, Chato.

Não bastasse a inconveniência existencial dessa espécie, os muito chatos discorrem, invariavelmente, sobre um único e miserável assunto: eles mesmos.

Diferente dos egochatos, do LFV e do homem autobiográfico, do Antônio Maria, que procuram sempre contar suas vantagens, os chatonildos (vamos chamá-los assim) nos despejam, a todo o momento, lamúrias, mazelas, falta de sorte (no jogo e no amor), falta de dinheiro, de amigos, de sono… De apetite, não. Pois comem os chatonildos. E pedem desculpas. E nos cutucam no ombro dizendo “tá ligado?”. E limpam a boca e os óculos com a manga do pulôver. “O que não mata…, desculpa”.

Os chatonildos são fofoqueiros frustrados. Não têm mais credibilidade para falarem da vida dos outros, por isso, falam da própria. O prazer de um chatonildo é encontrar um desavisado que lhe ouça com atenção. Assim, pode derramar sua autocomiseração sem trégua. E se o desavisado ouvinte demonstrar qualquer sinal de interesse, aí sim ele vai à forra. Canta aquela musiquinha do carnaval na Bahia. Inicia uma piada de cujo final vai se esquecer, lembra a piada e tenta explicá-la. Da um tapa nas costas do sujeito a fim de arrancar uma risada. “Desculpa, mas, quem ri por último…”.

Vê-se facilmente o desmancha bolinho ao aproximar-se a figura da roda de amigos. Sozinho, finge conversar com alguém no celular, que está de cabeça pra baixo. Simula ver alguma mensagem. Manda uma para ele mesmo. Sorri e responde a si próprio com cinismo.

Como são inconvenientes os que, no desjejum, não tomam uma dose de sifragol com leite morno. Ou um chazinho de setóca, no início da tarde. Agora, insuportáveis, mesmo, são os que pediram para serem chatos e entraram na fila redonda – são os chatonildos-de-galochas. Aqueles que falam de si e da vida alheia, com a mesma falta de bom senso. “Desculpa, mas, quem com ferro fere…”.

_________

E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas