Nada é para sempre [Madô Martins]

Posted on 14/06/2019

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Tenho um pequeno elefante de madeira vindo da Índia, e gosto de imaginar que é a representação daquele descrito por Saramago, em um de seus últimos livros. É meu companheiro há décadas, mudando de casa comigo, enfeitando cada vez um ambiente. Atualmente, ficava na bancada do banheiro, ao lado de dois outros: um menor, feito a canivete por um tailandês que encontrei no Japão, entre engenheiros de várias partes do mundo, convidados a um intercâmbio de conhecimentos em telefonia; e outro, o mais volumoso de todos, de uma época em que o uso do acrílico era novidade na decoração e tido como de bom gosto.

Quando o neto me visita, ofereço os dois maiores como brinquedo, preservando o frágil artesanato tailandês. Mas crianças crescem depressa e agora ele se diverte em jogar longe os objetos. Fez assim com o elefante indiano, que acabou com uma das patas e a tromba mutilados. O filho recolheu os restos do estrago e, com a sempre maravilhosa cola branca, restaurei a peça no dia seguinte. Para a família, testemunha do acidente, ele nunca mais será o mesmo. Mas, para os que o conhecem agora, parece inteiro e perfeito.

Emendas são sempre trágicas, a nos lembrar a efemeridade das coisas e da existência. Penso nas dezenas que trago comigo, nas profundas cicatrizes que algumas deixaram pelo corpo ou na alma. E sou um pouco elefante: custo a esquecer e perdoar as maldades do destino, que sempre me pegam desprevenida.

Consola saber que tudo passa. A sabedoria está em deixar fluir, assim corre-se o risco de esquecer acontecimentos bons, mas o que é mau segue para longe e pode até deixar de doer. Torna-se visão de míope sem óculos, uma lembrança imprecisa, de significado menor.

Por via das dúvidas, mudei o elefantinho para a estante de livros, no cômodo que mantenho fechado, quando o neto está na casa. Ali ficam meus tesouros, a caverna de Ali Babá, até o dia em que o pequeno alcançar a maçaneta, girar a chave e realizar seu abre-te Sésamo. Ou a faxineira resolver caprichar na limpeza, esfregando com força o paquiderme…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas