Ruína de copas [Tiago Maria]

Posted on 13/06/2019

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Vermelho calcinha, somente nas unhas dos pés. Nas mãos, nude Aquela cor de pele lambida. Francesinha no dedo médio do pé direito e da mão esquerda. Diz que favorece na conexão Afrodite. Whisky e cigarro, antes e depois. Durante: halls preto, óleos aromáticos e preservativo sabor morango. Luz Negra foi o nome que adotou. Trabalho e prazer misturam-se feito um beijo técnico de língua. Neta de cafetina. Pai ignorado. Legítima filha da ponta. Pensa em deixar a vida fácil, porém, leva tanto jeito pra coisa que não enxerga alternativas decentes.

Amores, alguns. Com horário agendado. Clientes, muitos. Todos sempre muito preocupados em gozar. Preocupados com o telefone celular, com o dinheiro, as esposas e os filhos. Nessa ordem. Foi uma única vez ao cinema (pornô). Sentiu asco. Prefere a sex shop ao Shopping Center. Agenda lotada até a próxima copa.
Dia desses foi intimada a casar. Assim, no seco e no civil. Igreja evangélica, pastor e tudo mais. Henrique Manso, da família dos Milio, herdeiro de terceira geração, não resistiu à conexão dedos médios. Rico, para os amigos, Riquinho aos um pouco mais que isso, era tido como levemente delicado, embora muito mais delicado do que leve, visto seus cento e vinte tantos quilos. Apesar da massa corporal, tinha uma fragilidade aparente, prestes a quebrar-se inteiro a qualquer momento. “Riquinho é um castelinho de cartas”, comentavam os faladores.

Ele, um comedor (no sentido alimentício da palavra) convicto e compulsivo
Ela, uma erva daninha. Trepadeira.

O matrimônio ia bem, obrigado, regado a destilados doze anos, tabaco e generosos banquetes oferecidos a convidados seletos. Rico, abstêmio, fazia as honras da casa. Enquanto Luz cintilava entre os convivas, trocando a piteira de tempos em tempos, despia os homens presentes com os olhos. A experiência adquirida nos anos de “massagista” fez com que desenvolvesse uma técnica exclusiva onde conseguia dimensionar o tamanho do pênis somente pelo toque no lóbulo das orelhas. Em raríssimas exceções errou por meia cabeça.
Quando Riquinho avistou sua Luz Negra aproximando-se de Benjamin D´Otávio Alcântara de Mello Gutierrez y Orleans, da família dos Multi, sentiu a sorte escorrer-lhe perna abaixo.

– Olá, que coincidência você por aqui. Só não estou recordando seu nome – diz, Luz Negra, estendendo a mão na altura dos lábios daquele homem que não acabava mais.

– Olá, a coincidência é toda minha. Podes me chamar de Ben, Ben D´Otávio, seu criado – e beijou-lhe demoradamente a mão, sem tirar os olhos do pingente que descansava entre os seios.

Durante a festa, Henrique Manso ainda avistou-os ao longe, no jardim, sentados lado a lado. Entre brindes e gargalhadas, acariciando-se mutuamente as orelhas. E riam. E pediram outra garrafa. Ruía seu castelinho de copas.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas