O doce [Cyro de Mattos]

Posted on 06/06/2019

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Coloquei um doce bom

Na boquinha de meu bem

Quando a mulher ama

Que doçura o homem tem.

Filhos, netos, parentes, de bom gosto alardeavam o feito incrível alcançado pelo patriarca. Caso raro no planeta.  Alcançara a marca de 102 anos de idade. A comemoração festiva, os familiares, a cada ano do aniversário.  Ele nem ligava. As vozes fraternas  pelos cômodos da casa modesta.

Falava, escutava, cantarolava baixinho.

Gostava de pegar o banquinho, a enxada com o cabo pequeno. Sentava-se no quintal, Ali,  extirpava a erva daninha, paciente. Lavrador desde jovem, hábito que cultivava prazeroso na passagem das estações. Mexia nas veias e nervos, a tendência para lavrara a terra, lavouras de curta duração.

O  tempo, benevolente, de mansinho ia sustentando-o. Ajudava a carregar as porções da vida na cacunda.

Morava com a filha Nicota, costureira de mão cheia, enviuvara quando andava nos seus 85 anos. Não tinha filhos, da vida não se queixava.

Pela manhã, com o sol quente, encerrava o agrário ritual pelo quintal.

Pela tarde, tirava um soninho, depois de fazer a refeição do almoço. Constava apenas de mingau de aveia e um copo de limonada.

Voltava à tarde ao ritual no quintal quando o sol esfriava.

“Tá na hora de tomar seu banho”, dizia Nicota, chamando-o à porta da cozinha, que dava para o quintal.

Recolhia-se para o banho fresco. Arrumava com cuidado os cabelos ralos, a cabeça miúda.  Aparecia na sala para a última refeição do dia, mais uma merenda. Chá de cidreira com bolacha ou rodelas de pão torrado.

Quando havia visita da vizinha ao lado, aparecia na sala. Perfumado. Os olhinhos miúdos, como duas contas, brilhavam. Vestido de camisa e calça azul, de mescla. A roupa engomada com cuidado pela Nicota, como ele pedia sempre.

Dizia para a visita:

– Dona, me arranje uma namorada.

A vizinha Lenilda, viúva oitentona, sorria.

Doceira de mão cheia, de voz macia, dava água na boca só de pensar nos doces que faziam as mãos dadivosas da vizinha Lenilda.

A cada visita da vizinha à filha Nicota, na encomenda de um vestido ou blusa com florzinhas,  o pedido dele não faltava.

– Me arranje uma namorada, dona…  te dou um doce.

Um dia, a vizinha apresentou-se como a eleita, que tanto ele procurava. Alegre, a voz cantante, maviosa.

Casamento no padre e no juiz. Casório bastante comentado na cidadezinha, aplaudido por uns, desaprovado por outros.

Agora, ao invés de oferecer um doce à antiga vizinha, ganhava dela  vários doces, uma delícia nos ingredientes caprichados. De abacaxi, goiaba, batata doce, carambola, laranja, mamão, banana, jaca e até de bala de jenipapo. Tinha também o de pudim de tapioca.  Uma gostosura.

O doce de leite era o que ele mais gostava.

Não cansava de elogiar o predileto. Chegava a chorar, de tanto comer esse tipo de doce. Se não recebesse um freio da Lenilda, era capaz de acabar com a vida ali mesmo, de tanto comer e se lambuzar de doce de leite.

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Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas