Algumas reflexões, nada mais [Raul Drewnick]

Posted on 02/06/2019

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Vi uma vez um defunto tão corado e sadio que estive a ponto de lhe conceder o benefício da dúvida.

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Manoel de Barros e Mario Quintana eram dois passarinhos que se disfarçavam de poetas.

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Escrever é como garimpar: provavelmente nada, afortunadamente ouro.

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Só os gramáticos sabem se é melhor morrer ao meio-dia e meio ou ao meio-dia e meia.

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Quando você diz poesia, deve dizer com a mesma esperançosa reverência com que o pobre, no sonho, diz pão.

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Eu me dei melhor com a poesia quando menino. Ela está certa. Por que deveria aturar as tolices de um velhote?

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Tinham tanto amor um pelo outro que para dar conta dele precisaram introduzir na história um terceiro.

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Certos escritores querem dar a impressão de que carregam a literatura nas costas. São esquálidos, pálidos, lamentáveis. E chatos.

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Os escritores falam mal de todos os concursos que ainda não ganharam.

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Escritor de verdade é aquele que venderia a mãe por uma menção honrosa.

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Há escritores que só reconhecem a superioridade de Shakespeare para não parecerem presunçosos.

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Há os chamados escritores de coquetel. Os rissoles, assim que os veem chegar, sabem que estão vivendo seus últimos instantes.

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Quando dois escritores se põem a conversar, as orelhas dos outros, até de alguns mortos, começam a arder.

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Nem todo escritor de monóculo e cavanhaque é necessariamente um clássico.

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Se souber, levante a mão: há quanto tempo já morreu o leiteiro do Drummond?

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Se não houvesse Wislawa, como seria a poesia? E a vida, como é que ficava?

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Como ilusão, a literatura se equipara ao amor, embora seja bem menos prazerosa.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas