Leite derramado [Madô Martins]

Posted on 31/05/2019

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fina ironia:
o mesmo amor,
mas somos outros

Pode um amor de juventude sobreviver à maturidade?  Ela queria acreditar que sim, mas não convencia nem a si mesma. Sabia-se, agora, muito diferente daquela garota de quem ele se lembrava, na sala de aula. E ele já não exibia a aparência que a atraía, na época da faculdade.

Ele surgiu do nada, quase 50 anos depois. No único encontro, discretamente, ambos controlaram a ansiedade de conferir as mudanças mútuas. Algumas ficaram evidentes de imediato: grisalhos, saúde reticente, cicatrizes deixadas pela vida revelaram-se bens comuns, além das recordações.

Parecia gratificante o reatar de laços que o destino lhes oferecia como presente. Ele confidenciou sentir-se outra vez adolescente, ao revê-la. Ela se sobressaltava, a cada toque do telefone. Nos dois, havia agora borboletas em revoada dentro do peito. Ele, por causa da alegria de possibilidades que julgava certas; ela, pelo temor de abrir a guarda e tornar-se vulnerável a novos sofrimentos. Há muito dissera adeus às ilusões.

A rotina de ambos marcou a primeira grande diferença. A agenda feminina estava sempre repleta de compromissos, fixos e inesperados, enquanto a dele era marcada pela constância de uma vida metódica, atada a velhos hábitos. Ela gostava de mudar de casa, já fizera isso dezenas de vezes e esperava realizar outras tantas. Ele morava há 40 anos no mesmo endereço. Ela apreciava caminhadas a beira-mar, ele detestava andar e pisar na areia. Pior de tudo: continuava casado e ela, divorciada.

Por isso, não o convidou a entrar, recebendo-o no jardim do edifício. Nos dias seguintes, ficava contrariada diante de tantas ligações, muitas vezes em momentos em que não podia estar disponível. Ele gostava de longas conversas ao telefone. Chegou a falar cerca de meia hora sobre automóveis, só para estar com ela do outro lado da linha. Muda, impaciente: por que não conversavam sobre os dois?

O leite começou a ser derramado, quando ele se revelou politicamente de direita, enquanto ela sempre se assumira à esquerda. E terminou por jorrar completamente no dia em que, aflito, mandou mensagem pedindo que ela telefonasse: “Não te acho! Me liga, estou sozinho em casa”. Sentiu-se desrespeitada, prêmio de consolação para um casamento insatisfatório. Vivera situação semelhante, anos atrás, e não pretendia repetir o erro. Nos dois casos, ouvira o mesmo clichê das novelas: “Quero me separar, mas tenho filhos”…

Decidiu encerrar o assunto ali mesmo, enquanto não perdia a autoestima de vista. Escreveu uma longa mensagem de adeus e guardou no baú das lembranças o que de bom ainda restava do que foram um dia.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas