O que os olhos não veem [Tiago Maria]

Posted on 30/05/2019

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No meio da sacada tinha uma luneta. Tinha uma luneta no meio da sacada, tinha uma luneta no meio da sacada tinha uma luneta. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio da sacada tinha uma luneta, tinha uma luneta no meio da sacada, no meio da sacada tinha uma luneta.

Foi como se uma pedra acertasse a vidraça desses meus olhos de retinas tão fatigadas, não tão fatigadas quanto as retinas do poeta, mas deveras fatigadas. Adoro escrever a palavra deveras. Agradeço a oportunidade. Mas eu falava de uma vidraça, uma sacada e uma luneta. Estava ela ali, no meio da sacada, espiando as rotinas dos apartamentos vizinhos, bisbilhoteira solitária, atrevida – oferecida – me diria eu mesmo, se não estivesse tentando enxergar no quê ela pousava o olho, a lente, para melhor dizer.

Acontece que ela piscou pra mim. Fez “psiu!” com o regulador de altura. Ajustou o foco maliciosamente a mirar as minhas retinas fatigadas – menos que as do poeta – insisto. Tomei-a então em minhas mãos nervosas de cronista que procura assunto nas janelas entreabertas de condomínios populares. Normalmente não utilizo desses recursos, mas aquela sacada, a luneta insinuante, aqueles universos todos ao alcance da minha fantasia, aff, não resisti. Ajustei a banqueta, servi um copo de suco detox de couve, limão e pepino (mentira, coca-cola) e alcei mira.

Da janela que fica de frente para a sacada não precisaria luneta para ver o vizinho no sofá da sala, de camisa, gravata e blazer, chinelos e calção do vasco, falando para uma webcam com um senhor que aparece na televisão. Vez que outra ele bloqueia a câmera com a mão e bebe consideráveis goles de alguma substância que está em um copo de alumínio entre as suas pernas. O senhor que aparece no televisor também promove cortes na sua transmissão.

Abaixo, no primeiro andar, a mãe com o celular na cozinha, o pai com o celular no banheiro, o menino na cama do casal com o celular, a menina assistindo vídeos no celular, o cachorro mordendo um celular, as plantas do apartamento e os espelhos todos cada um com o seu celular, o armário e a bancada com celular, a geladeira e o fogão conectados com os celulares e um emaranhado de carregadores sob a mesa.

No terceiro andar, onde mora o síndico, através da janelinha do banheiro consigo ver alguém no banho, não da pra identificar. O síndico dorme pesado na espreguiçadeira. Saíram do banheiro, agora consigo ver, seca o cabelo igual a minha senhora, as roupas também são… Mas, espera aí, parece… parece…  É a minha senhoura! Saindo do banho no apartamento do síndico!? Não, impossível, minhas retinas com certeza estão fatigadíssimas, muito, muito mais que as do poeta. É quando ela adentra o apartamento e me pega no flagra, em pleno bisbilhotar da vida alheia.

–  Tu não imaginas o que eu flagrei agora mesmo, no apartamento do síndico.

– Nada.

– Como assim, nada, tem certeza?

– Tenho. Absoluta.

– O como podes ter tanta certeza?

– A lente. Está tampada.

Ufa! Ainda bem. Imagina se eu não puder mais confiar nem nas minhas retinas fatigadas.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas