Minicrônicas para os nossos dias [Alexandre Brandão]

Posted on 26/05/2019

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(Imagem: Átila Roque)

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Do diabo: “Há um lúcifer no fim do túnel”, me disse meu anjo da retaguarda. Fiquei aterrorizado e reagi com firmeza: “Não se brinca com esse tipo de coisa”. Lustrando suas asas, o anjo argumentou que sua função celestial o impedia de fazer brincadeiras.

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A bala perdida: Os times estavam muito bem armados, razão pela qual não sobrou um zagueiro em pé. Os tiros saíram de todos os lados, e as vítimas caíram à direita, à esquerda, também pelo meio, onde, aliás, um bom centroavante poderia fazer uma graça. Pelo VAR, confirmou-se tardiamente, o único impedido era o juiz.

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A nova sintaxe: O direito é um dever de todos, dos que devem e negam, dos que devem e não negam e, por fim, dos que não negam, não devem, não se endireitam e, assim mesmo, devedores ou diretores são. Que fique claro.

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Pastor posto como chefe: Os buracos na rua com o tempo não serão mais buracos, serão ruas. Esta é a palavra sagrada. O resto é tormenta.

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Willie Nelson: Eu disse ao Negão para nos sentarmos na mesa embaixo da foto do senhorzinho simpático, com certeza um texano valente. Pedimos nosso hambúrguer e, enquanto esperávamos, viramos memes.

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Dois pesos e duas medidas: Para dar fim ao Supremo, basta um cabo, pode ser até de vassoura. Para matar um negro pobre, o exército e uma falsa guerra.

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De volta ao paraíso: A lógica em torno do que está sendo feito com a educação é muito simples. Com um esforço mínimo, qualquer um entende. Vamos lá. Tudo começa lá atrás, quando não havia nem filosofia nem sociologia e o mundo era um paraíso, embora ninguém soubesse, pois o saber também não existia. Sendo assim, para voltar ao paraíso, nosso destino desde sempre, urge desaprender.
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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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