Mãe [Cyro de Mattos]

Posted on 23/05/2019

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A mãe era afeto, dedicação, bons conselhos. Apressada dizia: “Menino, já para dentro, que vem o vento ventoso levado, levando cisco! Menino, já para dentro!” Alertava: “ Boa romaria faz quem em sua casa está em paz.” Gostava de fazer adivinhas. Sobre o sol: “O que é, o que é, o ano todo no deserto o mais quente é?” Para estimular na resposta correta, ela recomendava: “Responda certo como um menino esperto.” De pura carícia era a adivinha sobre a própria mãe. “O que é, o que é, o beijo da noite, de dia a melhor sombra é?” Para facilitar na resposta dizia que todos os dias essa pessoa acompanhava de coração o filho onde ele estivesse.

A casa era pequena, mas os dias tinham sempre as mãos zelosas da mãe. Colocavam nos vasos aquelas rosas, como sonho deixavam a manhã rosada e perfumada. Esbanjavam pelos ares só ternura. Davam vida à máquina de costura as suas pernas ativas. Os bordados, como beleza tecida por mãos até certo ponto divinas, ganhavam admiração de quem fizesse a encomenda e fosse recebê-la pronta. Como o mundo de Deus era grandão. Os doces que a mãe fazia cativavam com açúcar.

Uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe, ela disse. Só depois como homem crescido, o filho saberia o sentido justo do que ela quis dizer com isso. Conheceria então nos dias quanta falta suas mãos faziam, pois já não mais  cuidavam, não limpavam os caminhos do filho na lei da vida, agora teria  de ser sem ela a travessia.

– Você quer ser peixe ou ser gente? – preocupada, a mãe perguntou. – Primeiro a obrigação, depois a diversão, você só anda agora nadando e pescando no rio com o bando de amigos. Finalizou e se dirigiu  calada para a cozinha.

Com os queridos amigos, o filho nadava, mergulhava e pescava no rio, que descia sereno com as águas de fontes puríssimas, dividindo a cidade em duas partes. Ultrapassava os seus limites na aventura da vida e alcançava as linhas do horizonte. A mãe comungava com o desejo do pai. Sonhava com o filho formado na profissão de advogado. Ao lado do marido, não poupava esforços para que isso acontecesse um dia. O filho foi estudar interno no Colégio Irmãos Maristas, em Salvador. Foi quando o tempo cor de sombras hospedou-se no corpo da mãe com a doença traiçoeira. Não sabia como, em Salvador, conseguia estudar à noite no quarto enquanto ouvia no outro os gemidos da mãe. Doíam, como doíam. Das noites sem madrugada não houve nela revolta enquanto perdurou a agonia. Sem abraçar o rancor, escondia o choro no travesseiro.

Sem esquecê-la, anos depois, andou solitário nas terras longes. Certo dia,  entre medos e sombras, pressentiu que as horas ultimavam a vez de a mãe ser do vento memória. Chorou. Teve saudades de si. Procurou razões que explicassem essa hora do inevitável, a mais certa de nossos momentos. Nada, nada achou nessa noite que se cobre com um sossegado manto eterno. O que é, o que é, viver para morrer? Eis a questão, ser ou não ser. Quem é o mais sábio dos humanos que já achou a  resposta certa dessa adivinha? Cada um no seu canto, nesse vale de lágrimas, sofre o seu tanto, dissera a mãe.

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Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas