Crônica Número 126 [Marco Antonio Martire]

Posted on 22/05/2019

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Refeições

Uma taça de vinho sobre a mesa servia como peso de papel. Não se tratava da primeira vez, ele abandonava papéis sobre a mesa o tempo todo. Muitos recibos de contas pagas, correspondências, anotações. A taça descansava em cima da pilha havia horas.

Fazia um dia de sol. Que exigia dele uma disposição para conferir. Ainda que esperar dure uma vida, uma vida sempre é pouca para o tanto de espera. Homem de ficar, mais que de sair.

Queria comer.

Melhor que as panelas e o fogão, que o forno a ser aceso. Sujeito assim não pode ser exigente. Nem deve. Mas é que relaxar em casa soava como uma frase bela, uma corrente de ar que subitamente lhe massageava o rosto e o peito.

Passaram cinco minutos. Se espantava com o nada, com o piso e as paredes. Compras para a geladeira. Depois. Alguém que o esperasse. Tinha boas maneiras.

Disseram, acho que em um parágrafo entre tantos de um bom livro: maneiras. Enquanto decide sobre o almoço, o banho e o jantar. Lendo livros espalhados pela casa. Se não quiser, não precisa. Mas tenha filhos.

Teve. Mas casar de novo. Elas gostavam dele, embora o quanto variasse conforme os dias. Gozo nas refeições, juro.

Lembrou da taça. Viu que estava sobre a pilha de papéis e foi até a mesa. Pegou o celular. Carregado.

Abriu a porta e saiu.

Inauguração (open house)

Uma casa no tamanho. Sem enchente, grades ou demais surpresas. Necessária para quem, em seu mover pela cidade, ultrapassasse as seguintes sem se preocupar com campainhas. Feita de tijolo, barro cozido em olarias, indesfragmentável por capricho da argamassa. Telhado que não se discernisse, janelas para a brisa. Água, esgoto, luz, tevê a cabo e internet, mês a mês. Transporte na esquina. Sol de rachar às tardes, quando no serviço, graças!

Foi cobrada, pagaram e entraram. Ela viu, ele também. Um portão, é claro, aberto ou fechado, nos conformes. Nos ditados. Que saltavam, para brincar em todas as idades. As turmas, os casais. Tintas.

É casa onde seja. Mas vai que sim, anos e a selfie é esta. Resolução até em vídeo. Queira entrar, o café no fogão, se quiser uma cadeira. Música e cheiro de faxina. Nada de mapas. Pertinho, se errar, chama pelo nome. Existe zap pra quê.

Pinguela

Ouviu dizer que faz tempo haviam construído uma pinguela. Mas hoje há prédios e a travessia é urbana. Ele contra a velocidade das pessoas, queria saber onde construíram a pinguela. Pinguela no dicionário, se fosse maior, seria ponte. Mas antes de ser ponte, precisa que passem sobre a pinguela. Pois se não inexiste ponte. E a pinguela importa, se ficava aqui ou acolá. Por que diriam de uma ponte sólida, se a pinguela fora malfeita, erguida onde. Entre margens, entre lugares. Lugar bom de um lado, e lá lugar de outro. Outro que quereria a pinguela ou a ponte, na vontade de passar. Passaram quantos até a pinguela, até a ponte. Até disser que chega, foi o mundo. Pai, mãe, filho e filha, até carro, ou carroça (sei sim). Se dizem que parasse uma vez, não teria a ponte, antes pinguela, será porque um beijo. Faltou, ou teve beijo? Na casa de quem não se calou da pinguela uma vez. Daí vieram com a ponte. Mas que ponte, se gostavam da pinguela. Vai que cai essa pinguela, que nem a ponte. Sai pra lá, do teu lado da ponte.

Ponte, pinguela, ergueram uma ponte.

E se ouve falar de muro.

Ritmo

Se passou por lá no momento da conversa, não duvidaram. Pouca gente seria capaz de confirmar a versão que ela deu mais tarde. Tava usando um aplicativo naquele instante, posso confirmar com o assistente. Mas não foi preciso, quem mandava na treta aceitou suas condições, desde que se limitasse a 350 palavras sobre o assunto, e quatro comentários. Selfie não tinha como, muito menos mensagens. Aceitei na hora, depois me liberam. O sério é que precisavam saber, por isso é que chegaram nela, qual cor do sorvete teriam escolhido. Era uma informação certa, que definiria o tema, mas que não tinha sido gravada, galera do telemarketing confirmou, na base de dados consta: ligação no tal minuto. Precisou o aplicativo intervir, mandando explicar que o sorvete era azulado. Mas azul, não lembro disso não, esse foi no dia seguinte, que gente louca. Ficou para sair a atualização ao meio-dia. Deu e meia e nada. Ficou tudo estranho, sorvete a cores sim, é natural isso, sempre foi. Publicaram o link quando ela entrou no veículo sobre trilhos. Era o primeiro vagão, no meio de gente que conhecia a parada desde criança: teria que digitar uma senha, oito dígitos, letras e números, caixa baixa (3) e alta (2), então quem sabe.

Razões

Precisava que o destino lhe confiasse um privilégio: queria a fatura impressa com nome entregue no endereço. Mas que não lhe perguntassem o motivo, porque seu rosto não conhecera antes expressão mais severa, nem mesmo um cisco nos olhos. Ou uma espinha no nariz. Mesmo um lábio quebradiço não lhe trouxera tantos desafetos quanto indagarem sobre seus motivos. Há mil razões para tudo, o cotidiano à toa, o endereço promete. Se acordava com ligação que lhe pedia recado sobre onde se metera, dizia que a viagem marcada, impossível adiar a mudança. Esperou muito pela fatura, que ao chegar veio com um desejo de feliz aniversário. Mas os parabéns ontem, vou ter que devolver este presente. Ouviu primeiro um conselho, espirraram, se for pra devolver, aham, peça o recibo. Recibo em fibra de celulose assinado e carimbado. Selfie recente, 3 por quatro.

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Marco Antonio Martire é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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