Povo da rua [Cícero Belmar]

Posted on 20/05/2019

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Seja qual for o governo, protestar contra é uma delícia. Se o governo é inclassificável, então, é uma experiência única ir às ruas. No mínimo, descobre-se que, assim como você, ainda existe muita gente com capacidade de se indignar.

Brasil, 15 de maio de 2019. Essa data é para se sublinhar.  Quando pensávamos que estava tudo muito ruim, com um governo e um Congresso Nacional igualmente péssimos, descobrimos que nada está perdido. Ainda temos uns aos outros.

Foi nas ruas que percebemos: nos últimos meses tocamos o fundo do poço e agora estamos emergindo. Somos muitos, somos fortes, somos uma só revolta. De saco cheio, cada um ao seu modo, pode gritar: comigo não!

Digam o que quiserem, xinguem à vontade, acusem de balbúrdia, de massa de manobra, de idiota útil, não importa. É bom demais sentir aquela energia que liga as pessoas numa só emoção. Energia que reforça convicções, a união faz a força.

Um mundo de gente na rua. E quando você vira água daquele mar, já não tem mais dúvida, a onda pode virar tsunami. Gritamos palavras de ordem, cantamos. Existe uma música de Chico Buarque que diz: “Quando eu canto, que se cuide, quem não for meu irmão no meu canto!”

Fui para as ruas. Sem ser militante, sem pertencer a partido político algum, sem quebra pau, sem tocar fogo no lixo. Movido somente pela cidadania aviltada. Quantas coisas temos ouvido, visto e lido! Quanta coisa nos têm deixado com os nervos à flor da pele.

Mas, em nome de toda barbaridade, de toda estupidez, de toda insanidade, percorri o asfalto das ruas, pisei sobre os paralelepípedos, ergui meu braço, empunhei bandeiras. E o que presenciei, nos protestos da semana passada, contra os cortes, aliás contingenciamento, nos recursos da educação?

Vi muita gente jovem, bonita, umas pessoas que certamente nunca estão nas manifestações públicas resolveram sair de casa e mostrar a cara. E agora, mesmo que façam cortes ou contingenciamentos, a vitória já foi conquistada.

Vitória, é preciso que se registre, em várias frentes. Porque houve ganhos políticos indiretos com os protestos. Talvez até maiores do que reverter os cortes dos recursos da educação. Esta é a primeira vitória: até a semana passada, o movimento estudantil estava quieto, hibernando. E acordou, feroz.

Queriam mexer na educação e os estudantes voltaram para as ruas com gosto e com vontade. Agora vão dar um pouco de trabalho, viu? O movimento estudantil, todo mundo sabe, já fez muita zoada na História recente do Brasil.

Os estudantes não largaram a mão dos professores, no dia 15. E o sucesso da mobilização e da manifestação se deve, em grande parte, a essa juventude bronzeada que mostrou o seu valor. Que marchou não por que seja massa de manobra, mas por que têm consciência e capacidade de luta.

Vitória número dois sobre o obscurantismo: as lideranças das centrais sindicais marcaram presença de maneira contundente. Vamos e venhamos, o movimento sindical também andava meio sem bandeira. E, agora, tem. Ganhou moral, pegou pressão. Portanto, ninguém perde por esperar, todas as consequências estão por vir. É aquela história, “qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água!”

Finalmente, o três a zero do 15 de maio. Uma palavra que andava fora do noticiário passou a ser escrita nos títulos das matérias dos jornais da semana passada para cá: há sinais de impeachment no ar. Sei não. Pode ser. Mas, que voltou, voltou. E o povo na rua, você sabe, já derrubou até a bastilha. Sim, foi na França. Mas que derrubou, derrubou.

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Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas