Menina de Açúcar [Elyandria Silva]

Posted on 14/05/2019

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Mais do que um dia chuvoso, quando amanhecia um céu de luz opaca com torneiras abertas não adiantava nem levantar da cama. Era só uma leve movimentação na casa, depois o silêncio e a chuva batendo na janela. Então, voltava a dormir com a culpa querendo sair de debaixo do travesseiro. A chuva era um problema de infância, grave, para uma criança detalhista e extremamente responsável, além do que deveria ser. Era lei: dia que amanhecesse chovendo não ia à aula. Com uma educação superprotetora a pior coisa que poderia acontecer seria pegar um resfriado, uma pneumonia por ter se molhado em excesso ou pela roupa ter secado no corpo. Não tínhamos carro. Morávamos no centro da cidade, numa casa bem localizada, porém, simples, onde a distância para ir a pé para a escola era pequena, mas quando a chuva era muito forte, o suficiente para se encharcar, mesmo usando guarda-chuva, ficou decidido que o melhor seria não ir à aula, ficar em casa. Pois bem, só me restava obedecer.

Seria um presente para qualquer criança: não precisar ir para a escola e poder ficar dormindo enquanto aquela água toda caía lá fora. Não para mim. Era um problema. Não só porque deixar de fazer uma prova, entregar um trabalho ou ter que copiar páginas e páginas de conteúdo geraria trabalho por fazer, mas, principalmente, porque eu havia me transformado, sem querer e sem entender, na Menina de Açúcar, aquela que derretia em contato com a água. Por isso, como uma sereia às avessas, quando a chuva chegava, de noite, era obrigada a me esconder dentro de casa. Se saísse e me molhasse começaria a escorrer numa calda caramelada transparente. Quando chovia ininterruptamente dava-se um jeito: um vizinho levava, uma amiga passava ou Deus ajudava, pois ela cessava justamente na hora do caminho até o destino. Aliás, naquela época Deus ajudava muito, talvez os problemas do mundo fossem menores e ele tivesse tempo para as banalidades de uma menina que derretia. Depois que o tempo se normalizava a volta à sala de aula era como entrar numa festa à fantasia sem fantasia. Não tinha como escapar das perguntas e das piadinhas sobre um possível derretimento, principalmente por parte dos meninos. Não sei bem dizer, mas acredito que seja por isso que, hoje, adulta, em dias que a chuva não cessa, parece que vou derreter, caramelizar em finas torrentes líquidas, de lembranças boas, de saudades, de histórias, de pessoas belas, de vidas de outrora. E tem vezes que é muito bom ser uma mulher de açúcar, se derretendo por aí. Agora que cresci admiro tanto as pessoas de açúcar, elas são lindas e doces, e há muita beleza nisso.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas