Para adubar terra [Daniel Russell Ribas]

Posted on 13/05/2019

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“Que cabelo estranho” – e as pequenas mãos se multiplicavam e delas dedos saíam, dedos a não ter mais fim.

Ela olhava as outras crianças sem se sentir parte. Para brincadeiras, não era chamada. Ficava sozinha nas festinhas dos colegas. Chorava muito, e o pai a confortava.

Só era notada pela pele, uma cor diferente dos outros. Uma vez, encontraram um gato morto no pátio da escola. Um gato preto, que dizem que dá azar. Todos olharam o corpo com curiosidade e, depois de um tempo, esqueceram. Exceto ela. Sentia-se como o gato.

Até que atiraram um livro. E gritaram que ela não era normal, que era feia. Lembrou-se do pai, que contava lendas de ancestrais, da terra de onde vieram, de lutas, paixões, deuses e glórias. “Escrevemos nossas vidas na terra e as estrelas as refletem para sempre nos céus.” Olhou pro céu naquela noite, mas não viu estrelas. Não era como seus antepassados. Chorou, no quarto por dias ficou.

O pai a tirou do transe, perguntou o que houve. Quando soube, foram à escola. Ficou do lado de fora da diretoria. Nunca ouviu o pai gritar tanto antes. Xingou a escola, o diretor e o professor. Como podiam deixar essa perseguição ocorrer? Será que ele batia na mesa? Saiu, bufando.

“Vamos ao McDonald’s.”

No caminho, enquanto o pai dirigia, pediu para que ela prestasse atenção: “Na próxima vez, filma a aula. Filma com o celular e mostra pro papai. Porque gente como esse seu Ernesto só serve pra uma coisa, como falava seu avô.”

“O quê, papai?”

“Preto só serve para adubar terra.”

O pai, então, sorri e acaricia os cabelos lisos e loiros da filha. No fundo dos olhos castanhos, um amor profundo brilhava como num céu estrelado. Lágrimas escorreram do rostinho de branca inocência. Estacionaram.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas