Zona de conforto [Marco Antonio Martire]

Posted on 08/05/2019

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Uma estranha gentilmente ofereceu a ele a frente na passagem da catraca do metrô, o que lhe causou surpresa. Instantes depois, seguindo em direção à composição, ela metros atrás, o rapaz não conseguia mais pensar nas tarefas que o aguardavam em quinze minutos, quando já no serviço. Pensava em como ela devia ser bonita. Lamentava, porque não prestara atenção. Os cabelos, de relance. Viu que ela se sentou no mesmo vagão, mas longe dele, na extremidade oposta. Não quis olhar para lá, e se ela me encara por essa ousadia, voltou para o celular, para a mensagem recente, ao menos as notificações podia conferir de um jeito organizado.

Sua zona de conforto. A caminho do trabalho era no que acreditava. Certamente a primeira zona de conforto foi junto das primeiras fogueiras, antes, durante e depois do jantar. Um lugar querido e acolhedor, onde nos acostumamos a receber e distribuir os nossos afetos. A zona de conforto nasceu com a civilização, esta parte do universo que também construímos com humanidade. Construção que pressupõe uma porção de coisas, inclusive segurança. Ilusão de.

Quem não viu tempestades e inundações terríveis? Não soube de terremotos e erupções de vulcões? Quem quer esquecer que há meteoros no espaço, guerras e efeito estufa na Terra, poluição nos oceanos, alimentos transgênicos e cobertos de agrotóxicos? Sem contar outros eventos, naturais ou não, dos quais nem sequer fazemos ideia. Não existe certeza de que esta vida vá perdurar no universo, ou mesmo neste planeta. Como nós um dia. Gostamos de imaginar que será aos cem anos de idade, de uma forma serena, rodeados por quem nos ama.

É uma ilusão de que tudo estará bem ao fim do dia. Sem essa ilusão, nossa zona de conforto, inexistimos como espécie.

O rapaz evita olhar para a moça bonita que lhe fez uma gentileza. Talvez ela seja casada, pode ser que não goste que a observem, ou tenha sido apenas educada. Talvez espere retribuição, que característica!  Retribuição ou não, o rapaz volta seus olhos para o celular, através dele se conecta com o mundo, perfis com os quais ele pode a partir de toques na tela interagir como e quando quiser. Está confiante, seguro de si, finalmente.

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Marco Antonio Martire é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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