Delay [Madô Martins]

Posted on 03/05/2019

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Tenho um certo delay frente aos atropelos da vida. Demoro a reagir diante de uma alegria, uma desgraça, uma provocação… Por isso, quando vi a crônica do Ignácio de Loyola Brandão sobre Notre Dame, no jornal da cidade, pensei “por que não escrevi sobre isso?”, já que guardo lembranças da catedral e senti muito vê-la arder nas chamas, como Joana D’Arc. Agora cabe a você, leitor, a opção de ler esta variação sobre o mesmo tema, um eco estropiado escrito por quem deveria perceber em tempo a oportunidade de abordar o assunto que sensibilizou o mundo inteiro, mas só agora se digna a fazê-lo. E, se não quiser correr os olhos por estas linhas, compreendo, porque nestes tempos em que só importam as novidades, este é um  prato requentado.

Como Ignácio, ganhei a viagem à França, depois de sonhar com ela por décadas, desde os filmes da nouvelle vague, o curso na Aliança Francesa, a música de Aznavour, as fotos de Cartier-Bresson… Fui só, o que me fez lamentar não ter com quem dividir tanto encantamento. Mas pude falar francês com os franceses, ver ao vivo o que só conhecia nos livros e postais, provar o autêntico croque monsieur e os crepes, tomar chá no Deux Magots, visitar os subterrâneos da torre Eiffel, percorrer o Sena de bateau-mouche, visitar o Louvre, o museu d’Orsay, o centro Pompidou…

Hemingway tinha razão: Paris é uma festa. E depois de esgotar o roteiro esboçado por anos, me vi diante da Notre Dame. Havia uma feira de pães ao lado, com padeiros de todo o País apresentando suas maravilhas, e o aroma me fazia hesitar entre a religião e a gula. Contrária ao óbvio, pensei: à Catedral todo mundo vai, mas esta feira só acontece agora. Sem remorso, dei as costas para o monumento.

Já estava a meio caminho, quando os sinos do templo começaram a tocar intensamente, ensurdecedoramente. Interpretei como um chamado divino, um alerta quanto à minha desfaçatez e escolha errada. Voltei para a catedral sem titubear. Os fiéis e demais visitantes já haviam entrado, então, não enfrentei filas. Lá dentro, Nossa Senhora me acolheu em seus braços, como filha rebelde perdoada.

Não sei quanto tempo permaneci ali. O suficiente para admirar aquela arquitetura poderosa e a mágica dos vitrais. Para me refrescar naquela temperatura de pedra e altíssimo teto (até hoje, quando desde a praia ouço os sinos da Basílica do Embaré, volto para aquele dia inesquecível). Ao sair, os pães ainda perfumavam o ar, atraindo-me como ímãs. Conheci infinitas formas e receitas, ouvi sotaques pitorescos e levei comigo dois sacos de sabor e um coração abençoado.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas