O K7 [Tiago Maria]

Posted on 02/05/2019

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No setor de … Não, é melhor não dizer qual. Não existem ambientes mais promíscuos – mais oportunos às maldades e aos maus costumes que todos os tipos de setores, departamentos, gabinetes; Atalhando a prosa: em todo o tipo de seção. Ainda assim, é preciso que se diga que este em específico era dos mais encardidos. Aquela gente não dispunha do menor senso do ridículo. Do tipo que comemora enchente no subúrbio. Vamos chamar o setor em questão apenas de “um certo setor”.

De forma que havia “num certo setor certo colaborador”. Esse colaborador não era muito diferente dos outros colaboradores. Um pouco baixo para o seu peso, já passando da meia idade (que idade é essa?), a palidez de quem só pega sol pela veneziana do refeitório no intervalo do almoço, o rosto tinha uma dessas cores que poderíamos chamar de intestinais. Mas não se pode fazer nada a respeito, a culpa é do clima aqui no sul.  Quanto a sua ocupação, pode-se dizer que fazia as funções de subauxiliar do porteiro eletrônico.

Seu nome era Alec Alecsandrick. Os leitores, é possível, poderão estranhar um nome com tão poucas vogais, três pra ser mais exato, daí a necessidade de explicar-lhes melhor a ocasião do seu registro. Acontece que sua mãe estava em dúvidas entre Alex e Axel. No cartório, o pai de Alec, fã de Gogol, era gago e embriagara-se de emoção pela chegada do primogênito, numa crise de soluço, batizou o menino com o nome que nem ele conseguiria pronunciar, a não ser que estivesse bêbado e entre uma crise de gagueira e soluço.

Não há na memória do pessoal desse “certo setor” a data exata em que Alec Alecsandrick começou a trabalhar ali, o fato é que ele estava na mesma função, com os mesmos trejeitos e com aquele celular que era motivo de sarro entre os colegas. A tela estilhaçada, a capinha protetora do aparelho existia só da metade pra baixo, o teclado faltando números e, vez que outra, despertava a todo o volume com o bolero de Ravel.

Alec Alecsandrick estava disposto a acabar de uma vez por todas com aquilo. Passou em frente à loja do consertador de celulares e ao perceber que o dono da loja estava sóbrio, preferiu voltar mais ao final da tarde, quando os preços dos consertos caíam vertiginosamente à medida que o proprietário molhava a palavra. Foi aconselhado pelo mesmo a comprar um celular novo, “este aí não serve mais nem pra segurar a porta”. “Tenho este aqui, oh, o novo L-K7. Este sim, um tele molecular de respeito. Se me pagas duas ou três garrafas…”.

Acontece que o preço de duas garrafas já excedia em muito as suas economias, três então, sem chance. Alec Alecsandrick, decidido como jamais esteve na vida, queria o novo L-K7. Começou a empreender pequenas economias diárias, tipo: andava na ponta dos pés para não gastar toda a sola do sapato; Ao meio dia, fazia o rodízio nas meias para gastarem igualmente o pé direito e o esquerdo; Tomava somente banho frio e raramente ligava uma lâmpada em casa. Assim, em pouco mais de seis meses, alcança a quantia desejada e compra as garrafas.

No dia seguinte, o “certo setor” explodiu em elogios ao nobre colega, tapinhas nas costas, demorados apertos de mãos, até cafezinho ele ganhou. E, claro, todos queriam ver o novo L-K7 que reluzia sobre a bancada. Gente de outros “certos setores” veio cumprimentar o colaborador dono do aparelho. O chefe em pessoa trouxe-lhe documentos para que grampeasse, tomou o celular nas mãos, observou suas partes, virou de antena pra baixo, pesou-o com uma das mãos e sacudiu a cabeça em afirmativo. “Convidem-no para o happy de hoje à noite”. Alec Alecsandrick, mais constrangido que motivado, aceitou.

Na casa do chefe, o happy hour estendeu-se até certas horas da madrugada, o assunto não poderia ser outro, o L-K7 rodava de mão em mão despertando o delírio dos colegas, elogios chegavam de todos os níveis hierárquicos, inclusive a mãe do chefe veio conhecer o famoso aparelho. Na saída, antes de despedir-se, Alec Alecsandrick encontrou sou L-K7 debaixo da mesinha de centro, a tela no assoalho, digitais gordurosas por toda a parte. Esfregou-o na mangada camisa, assoprou o teclado, e guardou-o, seguro, no bolso das calças. Despediu-se.

No caminho de volta pra casa, a madrugada alta, esquinas desertas e um fiozinho de nevoa fizeram com que apertasse o passo, não antes de perceber que estava sendo seguido por duas sombras. Ao atalhar pelo meio da praça foi surpreendido pelos bandidos. “Esse celular é meu, perdeu!”. Ainda tentou reagir, mas foi golpeado na cabeça e levou vários chutes quando já estava no chão. Não resistiu aos ferimentos. Morreu sem ter feito uma ligação sequer.

Hoje, o espírito inconsolável de Alec Alecsandrick, vaga por “certos setores” de algumas repartições dando sumiço em aparelhos mais modernos. Já foi visto também, seu espectro, derrubando celulares em vasos sanitários e de janelas de prédios públicos. Se você já perdeu um telefone ou deixou cair na água, pode ter certeza que o espírito de Alec Alecsandrick esteve por perto. O L-K7 não é mais fabricado. O fabricante mudou de ramo e prefere não dar entrevistas.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas