Atenção: pouco fogo no mercado da paixão! [Elyandria Silva]

Posted on 30/04/2019

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Arrumação de domingo dá nisso, você acaba achando aquilo que nem sabia que tinha. Objetos misteriosos, exumação de lembranças já enterradas, fotos onde se fica perguntando quem é aquela pessoa feia e, depois de um tempo, descobre assustada que é você mesma. Terapia de Gaveta. Ela estava desmaiada, quase morta, lá no fundo da gaveta, soterrada por outras tantas, talvez à espera de fogo e paixão. Puxando todo o resto de tecido, com força, a resgatei. A calcinha preta, com bordado em vermelho, que ganhei do Wando, o cantor, aquele das calcinhas. Para alguns cafona sim, adorava-o, certas pessoas não entendem.

O show, mesmo com pouca plateia, tinha uma aura de histeria contida, das fêmeas, pelos machos que as acompanhavam, seguida pela silenciosa expectativa de ganhar a peça marcante no final do show. Não satisfeita em ganhar a calcinha das mãos do próprio corri para o camarim. Primeira da fila, atrás de mim só mais três. Silêncio. Espera. A fila de quatro, a cortina vermelha muda fechada. Abriu, a chamada. Se fosse hoje colocaria no facebook #partiufotocalcinhaWando. Uma rosa vermelha de presente, DVD autografado, foto com o kit na mão, ele não sorriu. Saí, no escuro, passei no vão da cortina vermelha atrapalhada com tanto presente. Devia ter uma sacolinha, pensei.

Amor vira-lata, safado, secreto, coração que chora, mordidas na maçã, pecados tentadores da carne. Em tempos de pouco fogo no mercado do amor e paixões cibernéticas embaladas pelos sertanejos universitários rolam as lágrimas de crocodilos derramadas por donzelas tatuadas com capelo de chapinha abandonadas por garanhões musculosos que juravam amor eterno na noite anterior. Não resta dúvida, as bolsas do fogo da paixão estão em baixa, despencaram muito, as brasas mal acendem. A inflação nos beijos e abraços, a competitividade de bundas e peitos feitos em laboratórios, o sexo feito com a ajuda da tecnologia, tudo isso contribuiu para piorar a situação dos corações em crise.

O que falta para as almas assoladas pela falta da paixão, não sei. Daquele amor ao som do Fogo e Paixão, das noites de sexta com a lingerie no capricho, da lua cheia vista dos lençóis desarrumados e molhados de suor. Ou do bilhetinho escrito no papel de seda com a marca do batom, da carta escrita à mão confessando o amor, do ciúme com cheiro de perfume no cangote. Quando a chama está acesa o outro é luz, raio, estrela e luar, é manhã de sol, sempre o sim, nunca o não. Quando vai leva nosso coração na mão e ali ficamos, desfalecidos, até ele voltar para o peito.

E quem sabe falta uma bela campanha pela volta da paixão desenfreada, das bocas ávidas por beijos de cinema, pela volta do amor forte e belo porque sem isso o mundo não fica aquecido. Pelas declarações sem pudor, pela exoneração daqueles que só reclamam e não querem amar. Sem amor e paixão só resta fechar as portas, é falência.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas