Inimigo dos bons [Rubem Penz]

Posted on 26/04/2019

8



O ótimo é inimigo do bom

Voltaire

Nem sempre escolhemos nossos inimigos. Aliás, quase nunca. Pensando melhor: se nos fosse permitida a escolha, o melhor seria não ter inimigo algum (ah, eu e minhas piegas utopias). Digo isso porque não basta nosso desejo. Por mais que alguém planeje ser inimigo de outro, ele (ela?) precisará compactuar, caso contrário não serão inimigos de fato. A inimizade, como a amizade, necessita o arranjo de dois.

Seguindo por este raciocínio, ouso afirmar que não tenho inimigos. O que não significa muita coisa, apenas a disposição diligente de considerar ninguém ao meu redor como merecedor deste grau de animosidade. E, graças a minha pouca influência no destino do planeta, falta-me estatura tanto para distribuir quanto atrair raios e trovões. Ou, em outras palavras, um grupo insignificante ganha grande coisa brigando comigo – eu muito menos. Logo, não brigam.

Como costuma acontecer nos terceiros parágrafos, adianto as importantes ressalvas: nenhuma pessoa, eu incluído, está imune a ter desafetos. Pois é. Igualzinho como, suponho, há quem não goste de você, há também quem não goste de mim. E aguarde a oportunidade de falar mal de nós para que, ela chegando, passe a distribuir maledicências – comemorar nossos tombos e desfazer nossas conquistas. É assim que penso de quem não suporto: oscilo entre o bem-feito e o grande-coisa, ainda que isso em nada os afete (só arranha minha aura).

Tal conversa surgiu nos pensamentos quando vi, numa palestra destinada a empreendedores, Voltaire sendo citado. “O ótimo é inimigo do bom”. Sem paciência para investigar o contexto original, fiquei matutando: qual interesse o ótimo teria para prejudicar, conscientemente, o bom, e vice-versa? Do segundo até se pode imaginar uma certa inveja capaz de incitar sabotagens. Mas, e o ótimo? Seria ele um Dick Vigarista o qual, a ponto de ganhar a corrida, estacionava o carro só para mandar o Muttley aprontar contra um retardatário? Quanta bobagem.

Agora, pensando bem, sem falsa modéstia, acho que sou um camaradinha meio bom. E, se fosse o caso de ter um inimigo, de preferência adotaria um ótimo. Bem pior é conquistar um inimigo horrível.

PS: sim, sim, sim, o palestrante queria ninguém paralisado na espera das condições ideais ou imaginando metas extraordinárias. Mas, entre empreendedores – e no Brasil! –, quem ainda acredita que isso exista?

__________

Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas