O bolinho [Marco Antonio Martire]

Posted on 24/04/2019

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O sortudo resolve ir comer o melhor bolinho. Faz uma enquete, descobre o lugar perto de sua casa. Vai a pé. Chega no lugar de chinelo. Então pede o bolinho, não um, quatro. Fritos na hora, como devem ser. Dois chopes enquanto espera. Chega o conjunto da obra: um prato pequeno com quatro bolinhos, garfo e faca, mais um prato vazio, limpo de sereno. Pimenta da casa acompanha. O sortudo imediatamente faz as honras, com o garfo e faca nas mãos reparte o primeiro bolinho em quatro partes, rega com azeite e pinga a pimenta. Devora dois assim antes que o garçom possa entender. À vista dele, reparte e come outro. Daí é que o garçom assustado e educado resolve intervir:

— Senhor, aqui na casa não repartimos o bolinho.

— Não? Então pra quê o garfo e a faca?

— Não usamos garfo e faca pra comer bolinho.

— E o que faço agora, como com a mão?

— Com a mão, senhor.

— Tem certeza? Não quero me meter em nenhuma encrenca.

— Certeza, amigo.

—- Tá bom, melhor comer o bolinho então.

Meteu os dedos no bolinho frito, regou com azeite e mordeu com fome e gosto. Ainda estava quente.

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Marco Antonio Martire é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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Posted in: Crônicas