Quem vai pegar o Bacaurau [Cícero Belmar]

Posted on 22/04/2019

1



Ainda resta uma esperança: o longa metragem de Kleber Mendonça Filho, Bacurau, está concorrendo ao prêmio principal do 72º Festival de Cinema de Cannes, hoje o mais importante do mundo. No momento em que se fala tão mal do Brasil por aí afora, o que nos redime é justamente a nossa cultura.

É como se esses fatos estivessem dizendo que nossos políticos são péssimos, as pessoas que estão decidindo nossos destinos, nas esferas de poder, estão abaixo da crítica, mas o que salva o Brasil é o seu povo. A cultura é a expressão do povo. Como sempre, o melhor do País é o brasileiro.

É duplamente irônico que a indicação do filme ocorra justo agora. Primeiro porque coincide com o momento em que a imagem externa do Brasil é péssima. A carreira do filme vai reforçar, no exterior, o drama que o País enfrenta com a propagação do fascismo nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Segundo, por que, internamente, a façanha de Kleber, que dirigiu o filme em parceria com Juliano Dornelles, ocorre quando a cultura é tratada como se fosse uma maldição pelos governantes. As leis de incentivo foram jogadas no lixo; os orçamentos para o setor, cortados, pois os manda-chuvas entenderam que não vale a pena investir. O detalhe curioso e contraditório é que a cultura é um das poucas coisas que revelam nosso lado positivo.

Mas, a ironia das ironias é que o filme Bacurau tornou-se finalista da Palma de Ouro 12 horas depois que o governo federal rejeitou, na semana passada, a justificativa de Kleber Mendonça Filho, que se defende da acusação de irregularidade na captação de recursos para um dos filmes anteriores. O orçamento inicial daquele filme estava previsto em R$ 1,2 milhão e foi gasto R$ 1,9 milhão. O governo quer que Kleber se explique no Tribunal de Contas da União.

Kleber, que é o mesmo diretor dos premiados e maravilhosos Som ao Redor e Aquarius, não é o primeiro e nem será o último artista brasileiro vítima da economia maluca deste País, muito menos da política de perseguição. Ele foi acusado de irregularidade depois de ter denunciado, durante a apresentação do seu filme Aquarius, também em Cannes, que o impeachment de Dilma era um golpe. Tornou-se pessoa non grata aos amigos de Temer, que viram na oportunidade uma forma de se vingar.

Mas, é isso. “Enquanto os cães ladram, a carruagem segue”.

Na verdade, eu queria dizer que o fato de este novo filme do cineasta pernambucano estar na competição do festival francês é uma tapa na cara da estupidez. É a esperança renovada dizendo que o fascismo não passará. E que eles, que são zero em termos de ideias, de pensamento, de compreensão de nossas expressões, de nossa identidade, de nossa História e nossa essência, podem até ocupar cargos temporários. Mas, o mundo dá voltas.  A carruagem segue. Ou o bacurau.

Não se sabe muito do filme Bacurau. Kleber não gosta de adiantar detalhes dos seus trabalhos, ainda mais este que está em fase de finalização da mixagem. O que se divulgou até aqui é que será um pouco western brasileiro, aventura e ficção científica. Um resumo do argumento diz que a moradora de uma comunidade rural morre e depois disso é que se descobre que a comunidade sumiu do mapa.

Algumas coisas, porém, já se pode dizer deste filme: uma, é que ele vai rodar o mundo e provocar discussões. Outra é que terá espaço reservado na crítica dos melhores jornais da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia. Enfim, onde ele passar, vai fazer propaganda da situação política que os brasileiros estão vivendo. Acho que dificilmente alguém elogiará o novo governo, que prega ideias contrárias às bandeiras que estão em modas no mundo civilizado e desenvolvido. Onde os direitos humanos e os interesses das minorias são sagrados.

Como escritor, imagino que a coerência do roteiro de Bacurau vai determinar que personagens descubram que sua vila não consta mais do mapa e, diante dessa situação, só há duas saídas: lutar para que a vila não seja invadida por forasteiros (o espaço físico continuará existindo, apesar de não estar no mapa) ou pegar o bacurau para outras paragens. O bacurau é o último coletivo da noite escura, uma alegoria do que vivemos hoje no Brasil.

__________

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

Anúncios
Posted in: Crônicas