Valei-nos, Tupã! [Madô Martins]

Posted on 19/04/2019

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Índio quer apito? Não, capitão. Quer terra pra morar, plantar e caçar, quer rio pra se banhar e pescar, quer água pura pra beber, ar sem toxinas pra respirar, um lugar pra realizar seus rituais e transmitir aos mais novos a cultura herdada dos ancestrais.

Quer que seu povo seja respeitado, aliás, como povo original deste país-continente, tão explorado há mais de 500 anos. Quer ter vez e voz, como Joênia Wapichana, advogada, primeira deputada indígena eleita para a Câmara Federal, uma dos poucos que conseguem se fazer ouvir, distribuindo carapuças aos que posam de governo. Como Sônia Guajajara, candidata a vice-presidente na eleição passada, que recentemente rebateu os argumentos do PSL para ceder território das tribos ao agronegócio.

Antes delas, o cacique Juruna usava o gravador na defesa das tribos, colhendo depoimentos nas aldeias e declarações de brancos engravatados, provando a ignorância destes quanto ao modo de vida indígena, suas necessidades primordiais, sua luta desigual contra a extinção, e as tantas injustiças cometidas.

Por mais dura que seja essa luta, outros líderes surgirão nas tabas, para despertar a mídia de sua eterna letargia e tirar da comodidade de um discurso já roto e medíocre as autoridades que dizem desejar o melhor para o Brasil. E, das duas, uma: os índios não resistirão à Terra reinventada ou, íntimos da natureza, nos ensinarão a sobreviver, quando o planeta atingir o auge da exaustão e não mais der frutos nem oferecer água potável.

Caminhamos a passos largos para o caos, poluindo terra, água e ar de forma inconsequente, em nome do tal progresso. Antigas doenças, tidas como erradicadas, voltam a vitimar a população e cresce o número de brasileiros nascidos com alguma deficiência, física ou mental. Nossa fauna, apesar da invejável variedade, já apresenta animais em extinção e extintos, que as novas gerações jamais conhecerão.

Com o desequilíbrio da cadeia alimentar, logo conseguiremos desestabilizar a vida terrestre, criando ambiente favorável tanto à proliferação de animais nocivos quanto ao desaparecimento de outros imprescindíveis, como as abelhas que já começam a se tornar raridade em todo o mundo, das quais dependem grande parte da polinização e a continuidade do verde.

Mas parece que tudo isso não passa de histórias sensacionalistas. O verde que interessa aos políticos é outro, em forma de cédulas. O ar que respiram, a água que bebem, os alimentos que consomem parecem vir de outro universo, onde o futuro não será o mesmo que deixarão aqui para os descendentes e o restante da espécie, se nada mudar.

Se ao menos falássemos tupi-guarani para pedir proteção a Tupã, engrossando o coro dos povos da floresta, não estaríamos tão abandonados à própria sorte, neste decadente paraíso…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas