A alma encantada [Daniel Russell Ribas]

Posted on 01/04/2019

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Largar-se ao ócio de um limbo sem equilíbrio, mero exercício de algum designo entregue à lentidão da trajetória entre o agora e o daqui a muito muito… muito pouco.

Alexandre Guarnieri

Sou um passageiro, embora meu destino não o seja. Estou há tempo tanto como cada grão de concreto ou o voo de sanhaços. As pedras portuguesas que o digam, vide seu cumprimento secular. O que muda é o passo. Se antes havia pressa em mim, agora a contemplação é plena. Em oposição à arquitetura intransigente, cujas faces deformam em inconstante identidade. Quando em vida, era assim, irrequieto. Tive um nome de origem, cristão como forçado a todos nessa terra. Libertei-me, no entanto, adotei a cidade e o codinome anônimo tal minha visagem. Agora, eu e a ela somos o mesmo. Ao menos, para olhos carnais. Estou aqui, entre vocês, mas você não me veem, nessa missa urbana em um terreiro cuja índole não pode e ser alterada, apesar das malogradas tentativas daqueles que supõem ter o poder. Feitiço é breve, encanto, por sua, substância eterna.

Caminho sem rumo, embora saiba onde esteja. Parti sem nome, estupefato. Pode-se afirmar que fui como vivi. A busca, esta droga que estimula os sentidos, é o que forma meu corpo. Este segue igual. A diferença entre humano e encantado é pouca, mui pouca. Ambos inconformados sem lugar. Sou assim, porém em paz com minha condição penada. Só não descanso.

Amigo, (afetuosa essa acolhida…), lembra-se deste canto? Era residência de uma diva, mui bela em voz, trato, faces… Quantas noites passadas em trocas de devaneios… Soube que cantou sua saída, triunfal no registro. A rua, mais uma vez, a aplaudiu. Nunca mais a vi. Era uma casa de dois andares, cuja discreta escada de entrada levava uma sala acomodada com sutil refino, Acima, um quarto com varandinha em formato de semiarena. Vários amores foram vislumbrados de lá pelo povo das ruas. Aplausos intermitentes. A olhos nus, encontra-se nessa época um edifício espelhado, de altura colossal como sua impessoalidade. Isso é contemporaneidade, uma ilusão vulgar. Porém, aos treinados, a casa persiste. Amigos, esta é a dicotomia entre enxergar e ver.

Avanço na avenida. Neste logradouro, cafés brindavam brados de políticos e artistas, todos de reputação impoluta à intervenção de buzinas, demolições, obras, renascimentos de cimento. Em sua homenagem, guiam os visitantes em placas. Afinal, a moral é uma questão de ponto de vista, em cujas alterações geográficas não surtem efeito. Os gritos anunciam novidades fugazes, tecnologias vinda da China, defronte a lojas de mercadorias em promoção. Entretanto, os nomes remetem à época encantadora, daí a resistência dos nomes, tal a das pequenas profissões ignoradas.

Sou constantemente invocado em quaisquer locais. Sugerem que meu espírito encanta a musa das artes. Não é verdade. Sou uma escrita, não a escrita. Pois a vida é evolução, sua forma se transforma ao sabor dos ventos de Cronos. Tive meu tempo, amigo, não há reforma que a retome. Sou o espírito de uma bela época. Sobrevivo em letras, vivo encantado. Porque a falta de um nome não é o único artifício do flanêur atemporal, mas sim, sua consciente indefinição. Eu o escolhi em existência carnal, recuso-me a abdicar após uma passageira participação. Se quiserem me encontrar, estou ao redor. Basta chamar meu nome, que, em seus orifícios concretos, evoca cidade.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas